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Defesa do Cristianismo

Polarização

Nos últimos anos, temos assistido a uma crescente polarização das sociedades de matriz cristã, no que diz respeito à entrada de pessoas de outras culturas e religiões, nos nossos países ocidentais. Entre os que pretendem acolher bem quem chega e os que querem que não venham ou voltem para o seu país, geram-se conflitos resultantes de uma tensão cada vez menos latente. Curiosamente, em ambos os lados deste debate, se assim se pode designar, encontram-se os que defendem a sua posição com recurso a argumentos ditos cristãos e bíblicos.

Esta esgrima de argumentos bíblicos resulta, frequentemente, de uma fraca compreensão desses mesmos argumentos. A falta de clarividência em relação ao que, de facto, constituem valores e princípios cristãos resulta, por seu turno, de vários fatores. Julgo que, de uma forma genérica, a maior parte desses fatores pode ser agrupada em três grandes grupos.

Diluição

Em primeiro lugar, encontramos uma tendência milenar de substituir a vivência pessoal e íntima do cristianismo, pela sua experiência enquanto instituição. O cristianismo deixou de ser um relacionamento do indivíduo com Deus e com os seus semelhantes, para passar a ser uma Religião, com uma estrutura organizacional pesada, uma tradição inquestionada e uma influência demasiado abrangente. A igreja (seja Católica, Evangélica, Protestante, Reformada, etc.) deixou de ser um “corpo” (organismo vivo), para passar a ser uma organização (estrutura, quase sempre com contornos empresariais). A vivência do cristianismo deixou de ser a vivência diária de valores de Cristo, para passar a ser uma organização a que pertenço, um lugar onde vou e um conjunto de rituais com que me anestesio, realizados por profissionais.

Em segundo lugar, a organização em que se transformou o cristianismo tem vindo a imiscuir-se reiteradamente nos “corredores do poder”. Embora, esta não seja uma tendência recente, é incontornável a crescente constatação das suas evidências, em diversos pontos do globo, como, por exemplo e de forma bem evidente, no Brasil e nos Estados Unidos. E, como temos visto, aquilo que “acontece lá fora”, cada vez demora menos para chegar ao nosso país. Esta mistura abjeta entre religião e poder nunca produziu bons resultados e não foi à toa que o próprio Cristo procurou deixar essas águas separadas, quando mandou: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. No entanto, não é só a religião que acaba sempre por ser seduzida pelo poder, como é também o poder que instrumentaliza a religião, para seu benefício.

Em terceiro lugar e provavelmente em consequência dos dois pontos anteriores, a linha que separa o cristianismo da cultura ocidental está completamente esbatida, nas mentes de muitos. Se por um lado se poderia pensar que esse esbatimento seria positivo, pela impressão de valores cristãos positivos na cultura, a realidade é outra. Em vez disso, chegamos ao ponto em que o cidadão comum já não consegue distinguir entre ambos. Ou seja, ao falar da cultura ocidental parece que estamos a falar sobre cristianismo e vice-versa. Os valores cristãos deixaram de ser elementos de transformação, para passarem a ser pretextos de defesa de um estilo de vida ocidental e entendido como civilizado ou de uma qualquer versão de nacionalismo ou patriotismo. De tal forma, que quando somos visitados por outras culturas, temos a tendência de entender que estão a atacar o cristianismo.

Parece-me que, da conjugação destes três grupos de fatores, temos vindo a assistir a uma diluição do que de melhor um cristão poderia partilhar com os demais. Não é difícil perceber que essa diluição nem sequer é recente. Se olharmos para a Europa, por exemplo, com a sua matriz cristã (primeiro católica e depois também protestante), vamos facilmente perceber que não é de agora que o cristianismo está a definhar. Não é com a chegada de muçulmanos e pessoas de outras religiões que a Europa vai deixar de ser cristã. Esse processo começou já há muitos anos, não pela presença de outras religiões, mas pelo abandono da vivência dos valores cristãos, por parte dos próprios cristãos. A título de exemplo, nos últimos 50 anos, existem registos do encerramento de mais de 30.000 igrejas e locais de culto cristãos, só na Europa. Se é certo que os edifícios não são o mesmo que o cristianismo (pelos fatores acima indicados, entre outros), este não deixa de ser um sintoma significativo.

A defesa

A defesa do cristianismo e dos seus valores não passa pelo combate às outras religiões, culturas ou ideologias, nem pelo distanciamento destas. Em vez disso, passa pelo reforço e reinvestimento na vivência dos seus valores, por parte dos que se dizem cristãos. Defende o cristianismo aquele cristão que o vive! A triste realidade é que a nossa sociedade ocidental já não tem os valores cristãos como combustível de vida. O amor ao próximo foi substituído pelo ódio ao que é diferente. O perdoar “setenta vezes sete” foi substituído pela vingança e, de preferência, servida “fria”. O amar (até) os inimigos foi substituído pelo “primeiro o meu país”. O caminhar a segunda milha foi substituído pelo egoísmo e individualismo. O dar a outra face foi substituído pelo “disparar primeiro e perguntar depois”. E por aí adiante…

Quando pensamos nos primeiros cristãos e na forma como viveram o cristianismo de forma autêntica (apesar dos erros que também cometeram), não os vemos preocupados em rechaçar ou expulsar os estrangeiros da sua terra. Não os vemos preocupados em proteger a sua maneira de viver ou a sua cultura “cristã”. Não os vemos a apregoar um qualquer tipo de patriotismo ou nacionalismo. Vemo-los dispostos a defender o cristianismo pelas suas vidas, pelas suas palavras, ações e atitudes transformadas. Vemo-los dispostos a, caso fosse necessário, entregarem até as suas próprias vidas, pelos valores em que criam. A certa altura, Cristo mandou os seus discípulos irem por todo o mundo, para partilharem o Evangelho. Hoje, na Europa, o mundo está a vir ter connosco. Ou seja, não precisamos ir a África partilhar o Evangelho, porque África está a vir ter connosco. 

O que restou...

O problema é que já não temos nada para partilhar. A diluição do cristianismo, que o nosso mundo ocidental experimentou, esvaziou-nos de tudo o que poderia, de facto, fazer a diferença. E este, parece-me, é o nosso grande drama: estamos vazios, não temos conteúdo, não temos substância. E o que tomou conta desse vazio? O medo! Aquilo que muitas pessoas, hoje, chamam de defesa do cristianismo, não é mais do que os frutos desse medo, enraizado nas nossas vidas e habilmente instrumentalizado pela religião e pela política.

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