23/07/2012

Salvador ou Senhor?

"Porque foi para isto que morreu Cristo, e ressurgiu, e tornou a viver, para ser Senhor, tanto dos mortos, como dos vivos." Romanos 14:9

Frequentemente, ouvimos dizer que Jesus morreu para nos salvar. De acordo com o registo bíblico, esta afirmação é verdadeira. De facto, ao morrer na cruz sem ter cometido qualquer pecado (Hebreus 4:15), Jesus pagou uma dívida que não era sua (Romanos 3:23). Pode-se dizer que Jesus adquiriu, assim, um "crédito" que fica ao dispor de todo aquele que depositar a sua fé nele (Romanos 3:26). Ou seja, a justiça que Jesus conquistou na cruz, é imputada aos pecadores culpados que creem nele (Romanos 4:23-25). Esta imputação é identificada na Bíblia como sendo a justificação (Romanos 3:24). Isto é, pessoas culpadas (por causa dos seus pecados) que mereciam a morte (afastamento eterno de Deus) passam a ser vistas, pelo Juiz, como justificadas, mediante o pagamento efetuado por Jesus, e deixam de estar condenadas (João 5:24).

Porém, esta explicação jurídica não esgota a dimensão do que Jesus realizou na cruz. De acordo com o texto de Romanos 14:9, o objetivo de Jesus, ao morrer e ressuscitar, foi o de ser o Senhor de todos. A salvação que Jesus conquistou na cruz, portanto, não pode ser dissociada do senhorio de Cristo.

Existem várias ilustrações que procuram ajudar a compreender o milagre da salvação que Jesus nos confere. Uma das mais frequentes será, porventura, a do nadador-salvador que, perante a situação de uma pessoa em perigo no mar, prestes a sucumbir ao vigor das ondas, prontamente a socorre. Esta ilustração enfatiza o desespero de alguém prestes a morrer afogado, estabelecendo paralelismo com o nosso estado desesperante de morte espiritual por causa dos nossos pecados. No entanto, a imagem peca por defeito (como, aliás, todas as que conheço) ao traduzir a noção de que ser salvo é, simplesmente, ser retirado de uma situação de perigo iminente para uma situação de segurança.

Pessoalmente, prefiro a ilustração do comprador de escravos. Nesta, somos representados pelos escravos comprados por Jesus que nos liberta de uma situação de escravidão e que, por ter pago o preço da nossa libertação (I Coríntios 6:20; I Pedro 1:18-19), passa a ser o nosso novo Dono e Senhor. Apesar das limitações que também esta ilustração apresenta, parece-me que perspetiva melhor a mudança drástica que ocorre na nossa condição espiritual: a salvação não é uma mera libertação de uma situação de perigo; é uma mudança completa e absoluta de propriedade (Colossenses 1:13). Aliás, diria que só somos salvos se Jesus passar a ser o nosso Senhor! É o facto de nos tornarmos sua propriedade que nos garante, não só a salvação, como também, a própria preservação dessa salvação (João 10:28). Ou seja, o sacrifício que Jesus realizou na cruz não é uma simples bóia de salvação, mas é o pagamento através do qual ele adquire a vida daqueles que nele depositam fé.

Em alguns ambientes religiosos, assistimos à propagação da mensagem de salvação em Jesus, como se tratasse simplesmente de alguma coisa boa que precisamos receber. Este ensino não está errado, só por si. Mas não contém toda a verdade. Talvez com a preocupação de simplificar a apresentação da salvação, para promover uma maior aceitação, corre-se o risco de diluir o próprio Evangelho. O grande perigo é que um Evangelho diluído, rapidamente transforma-se noutro evangelho, distinto do que é apresentado na Bíblia e ficamos perante algumas inquietantes questões:
  • Quem responde positivamente a um evangelho assim, será que entende o que está a fazer?
  • Será que entende que está a entregar a sua vida a Jesus?
  • E se não entende que é isso que está a acontecer, será que, efetivamente, isso está a acontecer?
  • Será que é possível aceitar Jesus como Salvador quando não se tem a mínima ideia de que ele passa a ser o dono da nossa vida?
  • Será que é possível aceitá-lo somente como Salvador e, só posteriormente, aceitá-lo como Senhor?
Fundamentalmente, julgo que não nos podemos permitir ao facilitismo de apresentar a salvação meramente como algo que se recebe (a tal libertação de uma situação de perigo). Antes, julgo ser muito mais consubstanciado pelo registo bíblico a apresentação da salvação como o resultado da entrega da nossa vida a Jesus, reconhecendo-o como Senhor e Salvador: "se com a tua boca confessares Jesus como Senhor, e em seu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo" (Romanos 10:9). Paulo e Silas apresentam a salvação ao carcereiro de Filipes nestes termos: "E eles disseram: Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa." (Atos 16:31). Igualmente, textos como João 1:12, este referindo-se ao ato de receber Jesus, não podem ser dissociados do ensino de que receber Jesus não é o mesmo que receber a ajuda oportuna de um nadador-salvador, mas sim, de um Senhor e Rei que irá exercer a sua autoridade na nossa vida (Mateus 6:10).

A apresentação da mensagem da salvação não pode ser comprometida por qualquer artifício que oculte, diminua ou dilua uma destas duas dimensões de Jesus: Salvador e Senhor. De acordo com o registo bíblico, estas duas facetas não são sequer desagregáveis. Nem podemos franquear a ideia de que a sua aceitação pode ser opcional ou temporalmente desfasada.

SALVAÇÃO é a entrega incondicional da nossa vida ao Único que, não só adquiriu o crédito necessário para o pagamento integral da nossa dívida, como tem todo o poder e autoridade para a preservação da nossa salvação. É, portanto, a aceitação de Jesus não só como Salvador, mas como o Senhor da nossa vida.

1 comentário:

  1. Concordo! Mto bom!
    Jesus com Cabeça da Igreja aponta para o Seu senhorio, relacionado, também, com a pedra de esquina que sustenta todo o edifício, ...

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