05/04/2013

Consagração feminina ao pastorado - I Timóteo 2:11-15 - Uma resposta comentada

O meu amigo e colega Tiago Oliveira publicou no seu Blog no Facebook (https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=356813587771054&id=152417248210690) uma resposta ao meu artigo anterior "Consagração feminina ao ministério pastoral - I Timóteo 2:11-15". Com a sua permissão, republico-o aqui (a azul), intercalado com os meus próprios comentários. Espero que este diálogo ajude a abrir canais de comunicação sobre o tema.

1 Timóteo 2:11-15 - Uma resposta

Caro Rúben Couto,
escrevo em resposta ao teu texto acerca da consagração feminina ao pastorado com base em 1 Timóteo 2:11-15. 
http://vidaemabundancia.blogspot.pt/2013/04/consagracao-feminina-ao-pastorado-i.html.

Em primeiro lugar, devo louvar o texto pela tua atitude. Pela primeira vez tenho o prazer de ler um texto sério de alguém com quem discordo mas que revela a postura correcta que todos deveríamos manter ao discutir qualquer assunto. Em segundo lugar, louvo o facto de procurares discutir o assunto no plano em que deve ser discutido: as Escrituras. Em terceiro lugar, e por estas razões, considerei, até por uma questão de exemplo, escrever uma carta pessoal em resposta ao seu texto. Embora procurarei argumentar no sentido do que me parece ser uma incorrecta interpretação do texto Bíblico, faço-o de forma pessoal e em tom de conversa. Ao fazê-lo quero afirmar que apesar de discordar totalmente das tuas conclusões, reconheço a fraternidade que nos une.

Antes de começar a refutar directamente o teu texto, começo por três notas preliminares, que me parecem ser pontos fracos do teu argumento em termos gerais:

1- Parece-me que a tua interpretação ignora o conhecimento que temos de Deus - acredito que a relação trinitária em muito nos pode ajudar a compreender as relações humanas e a desmistificar aquilo que me parecem confusões de conceitos: superioridade, importância, submissão, autoridade, etc... Porque é que a submissão é uma posição de inferioridade? Porque é que o exercício de autoridade é uma questão de superioridade? Será o Filho porque se submete ao Pai inferior a este? Será o Pai, no exercício da sua autoridade, superior ao Filho?

De facto, a dinâmica de economia divina tem, sem dúvida, elementos de relacionamento que se aplicam a nós, mas não a podemos decalcar para os relacionamentos entre nós, sem os devidos cuidados.
Concordo que a submissão, em Cristo, não é, de facto, uma posição de inferioridade. Aliás, de acordo com Efésios 5:21 «Sujeitando-vos uns aos outros no temor de Deus.» e Filipenses 2:3 «Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo.», percebe-se que a submissão na igreja de Cristo deve ser mútua e recíproca, não inferiorizando ninguém, mas sim equalizando. Por isso, não há como entendê-la na dimensão de inferioridade. Por outro lado, a autoridade já me parece ser outro assunto. Admito que a minha posição em relação ao assunto da autoridade na igreja não é o mais popular, nem tradicionalmente aceite, mas como deves compreender, essa não é a minha preocupação, nem critério. No mundo secular, estamos habituados a entender que, onde existe submissão ou sujeição, existe alguma forma de autoridade do outro lado. Quer seja imposta ou não, no “mundo” a submissão implica a existência de autoridade em contrapartida. Parece-me inevitável considerar que, sempre que falamos sobre autoridade, estamo-nos a referir a autoridade “sobre” alguém ou alguma coisa. Aquilo que vejo Jesus a defender é a inexistência de autoridade dentro da igreja, naturalmente, exceção feita à Sua própria autoridade, expressa nas Escrituras. Em Mateus 20:25-28 “Jesus, pois, chamou-os para junto de si e lhes disse: Sabeis que os governadores dos gentios os dominam, e os seus grandes exercem autoridades sobre eles. Não será assim entre vós. Antes, qualquer que entre vós quiser tornar-se grande, será esse o que vos sirva; e qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, será vosso servo; assim como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos”, Jesus refere-se tanto ao exercício de domínio (autoridade autocrática) como ao exercício da própria autoridade e indica que, entre os seus discípulos tal não deveria acontecer. Não me vou deter muito na discussão deste ponto aqui, não por desrespeito à tua observação, mas porque já o fiz neste posthttp://vidaemabundancia.blogspot.pt/2012/10/lideranca-crista.html. De forma muito resumida, vejo as coisas neste prisma: No ambiente da igreja, se A se submete a B, isso não significa que B tem autoridade sobre A. Porque a sujeição na igreja é diferente da que existe no mundo, quando A se submete a B, B deve responder com recíproca submissão. Esta lógica de sujeição mútua e recíproca, no meu entender, tem que ser extensível a líderes, pastores, etc.


2- Parece-me que a tua interpretação ignora a História da Redenção - não interages praticamente com toda a história bíblica (parece que o mundo começou em 1 Tim). Não é de estranhar que estejas mais disposto a basear a tua interpretação com base no método histórico-critico do que no histórico-redentor? Logo no início do texto, antes mesmo de o analisares, fazes considerações culturais que influenciam a tua conclusão, mas nenhuma consideração fazes à forma como Deus se manifestou ao longo dos séculos com o povo de Israel. Apenas como exemplo, acreditas que a revelação de Deus enquanto Pai (e não mãe) e enquanto Filho (e não filha) são puramente aleatórios na imagética bíblica? São puramente culturais? 
Faço algumas considerações aqui:
http://www.facebook.com/permalink.php?id=152417248210690&story_fbid=344601478992265 - Homem e mulher à imagem de Deus
http://www.facebook.com/permalink.php?id=152417248210690&story_fbid=277270259058721 - Cultura Género e Casamento

Lamento ter passado a ideia de que o mundo começou em I Timóteo… Acredito piamente que não. Procuro esclarecer: O meu artigo não pretendia constituir uma defesa organizada e sistematizada do assunto da consagração feminina ao ministério pastoral. Uma das pistas para perceber que esse não era o propósito do artigo é que eu nem faço referência a diversos textos habitualmente usados por quem defende a consagração feminina ao ministério pastoral. O que procuro fazer é partilhar uma das possíveis linhas de interpretação para um único texto, sendo que é um dos mais utilizados para a defesa da não consagração de mulheres ao pastorado. Caso não fosse assim, teria que concordar contigo sobre a necessidade de analisar, por exemplo, a história do relacionamento de Deus com Israel. No meu entender, mesmo essa análise, entendida à luz, como é natural, do Novo Testamento, não me conduziria a conclusões diferentes daquelas a que cheguei. Mas, quem sabe, esse poderá ser um próximo projeto de texto.
Em relação à referência que fazes sobre a revelação divina, no que respeita ao Pai não ser apresentado como mãe, nem o Filho como filha, estou certo que não incorres no erro doutrinário de considerar que Deus é homem ou masculino. Sendo Deus espírito, essa questão nem se coloca. Parece-me que, apesar da especulação e extrapolação que se possa elaborar à volta deste item em particular, as conclusões (ou não conclusões) a que se chega pouco contribuem para o assunto em debate, perante todo o registo bíblico mais diretamente relacionado.


3- Parece-me que a tua abordagem é anacrónica - parece irónico, mas argumentar com base na cultura e excluir ao mesmo tempo toda(!) a história da Igreja, incluindo a dos primeiros séculos, é a maior anacronia. A tua interpretação parece ignorar por completo quase vinte séculos de ensino e prática da igreja. Parece-me que a tua posição é de alguém que acredita estarmos hoje na posse de interpretar Paulo de forma que ninguém(!) no passado foi capaz. Toda a história da Igreja nos informa que Paulo foi interpretado de uma forma diferente (mesmo pelos que discordavam dele), mas hoje achamos que eles estavam todos errados (quase como a dizer: "ele nunca quis dizer isso. Toda a gente o entendeu mal até agora"). Serão que são os que nos antecederam na história culturalmente condicionados de forma que entenderam mal Paulo ou seremos nós os que estamos na verdade culturalmente condicionados nesta matéria de forma que já não conseguimos entender Paulo?

Em relação à história da igreja, deves concordar comigo que esse não pode ser critério de interpretação bíblica, nem mesmo o de prática eclesiástica. Continuo a entender que a Bíblia é a única regra de fé e prática e não a história ou tradição da igreja. Posso não o defender com a mestria de outros, mas se tenho uma preocupação premente é a de procurar no texto bíblico a sua própria interpretação. Como bem sabes, a longevidade da igreja não é determinante para a sua fidelidade. Já para não falar em inúmeras variantes pseudocristãs que existem há inúmeros séculos e não servem de referência, basta considerar as evoluções, divergências, variações e nuances que existem, somente em relação ao assunto em discussão, e somente entre os que defendem a não consagração feminina ao ministério pastoral! Portanto, a história da igreja é feita de histórias, algumas bem longas, em que nem todas se coadunam com o registo bíblico.
Em relação à interpretação que fazemos dos escritos de Paulo, também suponho que não assumes que a quantidade de intérpretes dita o acerto da interpretação. A história da igreja tem vários exemplos que demonstram que maioria não é sinónimo de razão. Eu diria que é mais um sinónimo de conforto e aprovação pelos pares, do que propriamente de acerto doutrinário. Por outro lado, não me arrogo ter a última palavra sobre o assunto. Porque estabeleço este diálogo contigo, espero que se perceba que considero ser um assunto que deve estar em aberto, em discussão. Acredito, também, que a evolução que Deus vai permitindo que a humanidade experimente, nos vários domínios do saber, permite a utilização de novas ferramentas, não para alterar o registo bíblico, mas para compreender melhor a sua interpretação e aplicabilidade contextualizada. Aliás, se assim não fosse, não proliferavam constantemente obras escritas sobre os mais variados assuntos bíblicos, em muitas das quais encontramos subsídios inestimáveis e dos quais não dispúnhamos até à data, para a compreensão do texto sagrado. Portanto, não me parece ser de descartar os sucessivos avanços que presenciamos (ex: sociologia, filosofia, ciências biológicas, física, etc, etc), mas de filtrá-los e usá-los para uma melhor vivência bíblica. Será que estes subsídios nos permitem uma melhor compreensão do registo bíblico do que os nossos antepassados? Parece-me legítimo considerar que existe essa possibilidade, desde que a compreensão obtida se enquadre com harmonia no registo bíblico.


Em resposta directa ao teu texto, apresentarei a minha refutação ao que me parece ser o argumento central de Paulo e depois algumas consideração gerais. 

O centro do texto é o início do versículo 13. A partícula γρ (porque) é crucial para entender o que Paulo quer dizer. O teu argumento parece esquecer a própria sintaxe do texto. Estando Paulo a revelar a razão/fundamento pelo qual lhes está a dar aquela ordem, porque razão afirmas tu que aquela não é a razão? O que queres dizer com "consubstanciar o seu argumento e não como forma de universalização"? Sendo o argumento em si uma universalização, como podes tu dizer que não é? A afirmação de Paulo é esta: As mulheres não devem ensinar porque não foram criadas para desempenhar essa função (antes que houvesse pecado). O que podemos, isso sim, dizer é que se Paulo não tivesse escrito os versículos 13-14, o ensino poderia ser encarado como algo local. No momento em que Paulo utiliza este argumento, a universalização é o próprio argumento.

Concordo plenamente contigo ao referires que a partícula “gar” (porque) é crucial. Também julgo salutar indicares que, caso Paulo não fizesse referência aos versículos 13 e 14, o argumento poderia ser encarado como algo local. O que proponho, neste meu comentário é, então, procurar seguir a linha de raciocínio que indicas: os versículos 13 e 14 não são uma consubstanciação de um argumento local, mas constituem a própria razão/fundamento da ordem de Paulo, pelo que a mesma deve ser entendida como universal. Assim, se Paulo pretendia dar uma ordem universal, em relação às mulheres (para facilidade do argumento, vamos considerar mulheres da igreja, apesar da Criação nos apontar para todas as mulheres, mesmo antes e fora da igreja), como que a indexou aos registos da Criação e da Queda, para mostrar a universalidade de aplicação da sua proibição. A ordem, em bom rigor, é esta: “Pois não permito que a mulher ensine, nem tenha domínio sobre o homem, mas que esteja em silêncio.” Nesta linha de raciocínio e de forma a manter a absolutamente necessária integridade interpretativa, somos forçados a concluir que esta proibição não pode permitir exceções que violem o princípio de ensino feminino a homens. Sei que existem igrejas que adotam esta linha de raciocínio, em que a mulher está, de facto, impedida de exercer qualquer ministério que implique o ensino (mesmo que não seja o considerado como formal). Apesar de não concordar com esta posição, que considero extremista, e de não entender como a harmonizam com o restante registo bíblico, ainda assim, compreendo melhor esta posição e entendo a sua coerência e integridade interpretativa melhor do que a posição que diz que a mulher não pode ensinar (porque a Criação e a Queda o impedem), mas existem exceções! Então, de acordo com esta linha de raciocínio, a ordem da Criação permite exceções? O registo bíblico da Queda permite exceções? Tradicionalmente, quem assim defende, refere-se às exceções de Priscila e Áquila (que ensinaram Apolo, em sua casa), a Eunice e Loide (que ensinaram o filho e neto Timóteo) e à orientação dada em Tito 2:4-5 (em que as mulheres mais velhas deveria ensinar as mais novas). Acrescento que existem outras exceções: 1) As mulheres podiam profetizar – o que, não configurando um ministério considerado formal de ensino, ainda assim é ensino, porque inclui a proclamação da palavra de Deus (I Coríntios 11:5); 2) Todos devem ensinar mutuamente, através de salmos, hinos e cânticos espirituais – o que inclui as mulheres (Colossenses 3:16). Se considerarmos que a proibição de Paulo tem o seu fundamento e razão de ser nos registos da Criação e da Queda, a única exceção que não levanta problemas de incoerência é a de Tito 2:4-5, porque mantém a prática do ensino exclusivamente dentro do género feminino. No meu entender, todas as outras exceções levantam sérias incompatibilidades textuais e sérias contradições. Perante estas incongruências, não me parecer salutar usar o argumento da Criação e Queda para universalizar a aplicação da proibição e logo a seguir dizer que existem exceções, as quais me parece que contrariam a própria ordem da Criação e a Queda:
- Priscila a ensinar Apólo. Alguns defensores de que esta é uma exceção à proibição, dirão, por exemplo, que este ensino decorreu na residência de Priscila e Áquilo, logo não está no âmbito da proibição de Paulo. Este argumento apresenta alguns problemas, no meu entender. Em primeiro lugar, a proibição de Paulo não está “geograficamente” limitada aos edifícios da igreja, por várias razões: 1) A igreja daquele tempo não tinha edifícios; 2) A igreja naquele tempo reunia-se nas casas particulares; 3) Neste mesmo capítulo da carta a Timóteo, Paulo indica que os homens levantem as mãos em oração em “todo o lugar”, pelo que não há limitação geográfica; 4) Mesmo que, até ao versículo 12, o argumento se restringisse a algum ambiente formal da igreja, os versículos 13 e 14 extravasam qualquer tentativa de limitação geográfica ou a momentos particulares, por fazer referência à Criação e Queda. Em segundo lugar, o conceito de “ensino formal da igreja” é uma construção da tradição da igreja que não encontra respaldo nas Escrituras. A descrição que Paulo apresenta, por exemplo em I Coríntios 14 para o momento congregacional é, sem dúvida, de que tal deveria ser um momento ordeiro e respeitoso, mas parece-me tudo menos formal, com a possibilidade de participação ordeira por parte de todos os membros!
- Eunice e Loide a ensinar Timóteo. Perante esta exceção, defendem os proponentes da não consagração feminina ao pastorado, que a mulher poderá ensinar as crianças. Em primeiro lugar, a mulher puder ensinar as crianças, falta definir, pelo menos no caso dos rapazes, a idade até à qual o pode fazer. Pode parecer ridículo, mas é o extremo em que se cai quando, no meu entender, se opta por uma via predominantemente legalista. Em segundo lugar, sem querer desrespeitar os meus leitores, parece-me que a utilização desta exceção constitui um aproveitamento conveniente, por parte dos proponentes da proibição. Isto porque, ao mesmo tempo que defendem que a mulher não deve ensinar, por ser um argumento ancorado na própria Criação e Queda, estão dispostos a usar os préstimos femininos na área do ensino para, por exemplo, ensinar nas classes da Escola Bíblica Dominical de crianças, nas quais poucos homens quereriam ensinar.
- As mulheres que profetizavam, em Corínto. Não querendo começar um novo artigo neste ponto, acrescento somente que não podemos entender esta atividade de profecia restrita àqueles tempos, nem limitada a qualquer tipo de manifestações (mais ou menos) involuntárias de anúncio de eventos futuros. A profecia é, como se vê, por exemplo nos profetas do AT, uma forma de transmissão da palavra de Deus para o Seu povo. O nosso equivalente atual (em termos de nomenclatura) será porventura a pregação. Não me parece correto fazer uma separação estanque entre profecia e ensino, uma vez que, apesar de poderem ter particularidades distintas, nada invalida que o ensino aconteça integrado na profecia ou pregação.
- O ensino mútuo, referido aos Colossenes. Este texto não só aponta no sentido da atividade do ensino ser responsabilidade de todos os membros da congregação (embora nem todos tenham o dom do ensino), como abre o leque do conjunto de atividades que são, de facto, ensino. Ensino não é só proferimentos ex-cátedra! Em bom rigor, a proibição de Paulo não está circunscrita a momentos formais. No conceito do próprio Paulo, ensino não é só o que acontece em momentos entendidos hoje como formais. Ensino é transversal, acontece em inúmeros circunstâncias, está presente em quase todos os momentos da vida da igreja. O que dizer, por exemplo, das mulheres que ensinam em Seminários? E as que ensinam na Escola Bíblica Dominical onde se encontram homens? E as que escrevem livros, não nos ensinam? E as que escrevem hinos? E as que conduzem o louvor e cantam, para nosso ensino? A meu ver, é de tal forma abrangente o conceito de ensino no contexto da igreja que a única forma de entender a proibição de Paulo às mulheres, ao mesmo tempo que mantemos inalterado o restante registo bíblico, é dentro de um quadro contextualizado de um problema concreto e local.


O que afirmas na tua argumentação é que as razões que levaram Paulo a determinar aquela prática foram outras que não aquelas que ele diz que foram. O que acabas por fazer (espero que inadvertidamente) é querer rescrever o próprio texto Bíblico. Segundo o teu argumento, o texto deveria ser assim: "as mulheres não devem ensinar porque existem na vossa cidade muitas prostitutas que lideram rituais idólatras e nós não nos queremos identificar com elas". No entanto, isso é rescrever o texto bíblico e colocar nas palavras de Paulo o que ele nunca quis dizer. Não é estranho que mais facilmente queres pegar em algo fora do texto para desculpar o que o texto realmente diz?

Entender que a aplicabilidade do texto de Paulo se circunscreve àquele contexto (igreja, local, época) não é, de forma alguma, “desculpar o que o texto realmente diz”. O que o texto realmente diz é que não me parece ser harmonizável com o restante registo bíblico, se for entendido como uma proibição universal, como procurei expor no meu comentário anterior. Isto, porque entender o que o texto diz e identificar se a sua aplicabilidade é local ou universal não é, de modo algum, uma forma de descartar o próprio texto. Aliás no seguimento do teu texto (abaixo) explicitas que existem textos bíblicos em que é necessário entender uma aplicabilidade circunscrita, e bem, na minha opinião. Além disso, importa salientar que, mesmo com uma aplicação literal e localizada no tempo e espaço, existem princípios universais que o texto nos comunica. Não defendo que se deva “passar por cima” dos textos que podem ter uma interpretação discutível. “Toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça”. Portanto, impõe-se uma necessidade de entender o texto e extrair os princípios divinos e eternos que se aplicam a nós hoje, bem como a todas as culturas, tempo e lugares. Julgo que concordarás que, dependendo do texto, o grau de dificuldade para identificar esses princípios será diferente. Existem textos em que vemos clara e imediatamente, como se aplicam a nós. Noutros textos, impõe-se uma investigação mais cuidada e aprofundada, sob pena de transportar um “involucro” que não se destina a nós e deixar para trás o verdadeiro “conteúdo” que, esse sim, é aplicável á nossa vivência. No artigo que escrevi, confesso que não me debrucei muito sobre a investigação desses princípios, porque a minha primeira preocupação era apresentar uma alternativa de interpretação daquele texto que fosse, no meu entender, mais condicente com o demais registo bíblico. Ainda assim, mesmo no final do artigo afloro alguns itens que poderão servir para futuras investigações no sentido de identificar esses princípios eternos que podemos e devemos extrair deste texto.


O meu argumento é que existe apenas uma única opção sintática (repito: única!). Mais, ela é sustentada não só pela história de Israel, como pelo facto de que sempre foi interpretada desta forma pela Igreja cristã. Tens de anular não só a história de Israel (e a forma como Deus sempre se revelou a si mesmo ao povo) como a história da igreja para afirmar o que dizes.
Para finalizar este ponto, quando queres argumentar que um texto tem uma aplicabilidade circunscrita (que por vezes existe), tens de ter base sólida para isso. Os argumentos que sempre aparecem nestas circunstâncias são inferências de inferências que, no caso de estarem eventualmente correctas, levam à conclusão de... Como no caso que citas de Priscila e Áquila. Se(!) a ordem dos nomes tem significado em si mesmo. Talvez(!) Priscila ensinasse. Se(!) estivermos correctos, então...
O que é estranho é que estejas tão certo quanto à certeza que mulheres ensinavam com base em inferências de suposições (com maior ou menor base de probabilidade) do que aceitar um ensino bíblico claro. Tornas claro o que é obscuro e obscuro o que é claro. Não te parece dois pesos e duas medidas quanto ao mesmo texto bíblico?

Não me parece dois pesos e duas medidas. Diria que vejo dois pesos e duas medidas, por exemplo na posição que expus acima, em que a ordem da Criação e a Queda são usadas para defender uma aplicabilidade universal e, logo a seguir, essa universalidade é desmontada por exceções que contrariam os dois eventos de Génesis.
Em relação ao tornar escuro o que é claro e claro o que é escuro, peço humildemente perdão se foi isso que deixei transparecer. Estou certo que a forma como procurei expor o assunto não tem o nível académico que se exigia a um tema desta natureza, mas procurei fazê-lo com a melhor das minhas capacidades e com a preocupação constante de que Deus fosse “desvendando os meus olhos”. Lamento se não o consegui fazer com clareza. Quando aos argumentos em si, não concordo que sejam obscuros, uma vez que permitem uma clara harmonização quer com o registo da Criação e da Queda, quer com a existência das exceções que referi acima. Assim sendo, no meu entender, a interpretação que proponho, ajuda a clarificar e não a obscurecer.


Para além disto, deixo apenas breves notas (para o texto não se tornar demasiado longo) de áreas em que me parece que o texto não é apenas inconsistente mas que incorre em confusões preocupantes (darei apenas um exemplo por área):

1- Inferências ilegítimas - por exemplo, quando citas 1 Coríntios 11, mencionas que a maioria dos comentadores argumenta que o véu já não precisa ser usado pelas mulheres. Daí, precipitadamente, partes para a tua conclusão. Na minha perspectiva, isso é claramente ilegítimo. Primeiro, porque uma boa parte dos comentadores não anula o argumento criador para sustentar a sua posição. Segundo, e mais uma vez (isto comum no teu texto), estás mais disposto a utilizar um texto bem mais complexo, como 1 Cor 1:17-16, para informar um mais simples e mais claro. Porque não fazes o movimento inverso? Terceiro, a base do teu argumento é: se eles fazem aquilo áquele texto eu também posso fazer isto a este texto e concluir que é cultural. Isto é argumento?

Questionas porque não faço o inverso, em relação aos dois textos. Se bem entendo, perguntas porque não interpretar o I Cor. 11:7-16 à luz do texto de I Timóteo 2:11-14. Gostaria de esclarecer que não baseei a interpretação de I Timóteo 2:11-14 em I Cor. 11:7-16. O que fiz, simplesmente, foi recorrer ao paralelismo da referência à Criação, para evidenciar que essa referência não resulta necessariamente numa aplicabilidade literal e universal do texto relacionado. Por outro lado, não faço o movimento inverso pela mesma razão que julgo que tu também não fazes. Ou seja, se a aplicabilidade literal e universal do texto de Timóteo servisse como regra interpretativa para entender e aplicar o texto de Coríntios, teríamos que concluir por uma aplicação literal e universal das mulheres terem que ter a cabeça coberta e por aí adiante. E, se não estou em erro, julgo que não defendes essa prática.


2- Conclusões precipitadas - utilizas, por exemplo, a palavra αθεντεν. A conclusão de que esta palavra tem uma conotação negativa é precipitada. Primeiro, não citas qualquer fonte onde baseias a tua afirmação. Segundo, supondo que foi um léxico, os lexicógrafos não concordam nas suas conclusões. Terceiro, os estudos mais recentes (aceites até por egualitaristas) apontam que essa palavra é usada com uma conotação positiva (existe um capítulo dedicado a essa palavra neste livro:http://www.amazon.com/Women-Church-Analysis-Application-Timothy/dp/080102904X/ref=sr_1_3?ie=UTF8&qid=1365108535&sr=8-3&keywords=women+in+church.)

Embora concorde que não existe unanimidade na definição da palavra, A Concordância de Strong aponta para “govern, exercise authority. From a compound of autos and an obsolete hentes (a worker); to act of oneself, i.e. (figuratively) dominate -- usurp authority over.”. Neste link poderás encontrar mais algumas aproximações à definição da palavrahttp://biblesuite.com/greek/831.htm, entre as quais se encontra, por exemplo: “authentéō (from 846 /autós, "self" and entea, "arms, armor") – properly, to unilaterally take up arms, i.e. acting as an autocrat – literally, self-appointed (acting without submission).”Nestas duas referências a palavra tem conotações de dominar, usurpar autoridade e agir como um autocrata. Portanto, mesmo admitindo que não existe unanimidade na definição do termo, não considero precipitação chegar à conclusão de que existe um pendor mais negativo sobre esta palavra do que sobre o termo “exousia” (autoridade).


3- Confusão no significado de termos bíblicos - existe uma confusão preocupante no que diz respeito aos termos bíblicos. Com que base sustentas a relação que apresentas entre autoridade/superioridade e submissão/inferioridade? Ou a que propósito questões de hierarquia são chamadas para o caso quando Paulo apenas fala sobre o desempenho de uma determinada função? É nestes pontos que uma teologia consistente evitaria certos erros. A simples clarificação e distinção entre o valor ontológico do ser e a função que desempenha é crucial. Acreditamos num Deus triúno: três pessoas com a mesma importância mas com funções diferentes. O Filho não se sente inferior porque a autoridade vem do Pai. Nem o Pai e o Filho são superiores pela sua autoridade sobre o Espírito Santo.
Se assim acreditamos, porque razão colocamos sempre a autoridade de alguém sobre outro como definidor de importância. Aliás, este conhecimento é do mais basilar para a nossa fé e para a vida na Igreja.

Refiro-me à autoridade, porque, como discuto no meu artigo inicial, Paulo não está a proibir uma atividade, mas sim duas: ensinar e exercer autoridade. Em relação à minha posição relativa ao exercício de autoridade no seio da igreja e consequentemente à existência ou não de hierarquia, fiz algumas observações no meu comentário ao primeiro ponto deste teu artigo.


4- Conclusões erradas - utilizas, por exemplo, Colossenses 3:16 para dizer que se Paulo exorta os membros a ensinarem-se mutuamente, então as mulheres podem ensinar. Queres tu dizer então que ensinamos pessoas só quando estamos a pregar formalmente? Ou ensinamos de várias maneiras, incluindo o nosso exemplo? 
Qual é então o teu entendimento: todas as pessoas devem expor publicamente as Escrituras? Se sim, porquê o dom de ensino? Se não? Quer dizer que algumas pessoas não ensinam de nenhuma maneira os outros e, desta maneira, não cumprem o que Paulo exorta as igreja em Colossos a fazer? Sim, o ensino formal/público está reservado a alguns. Ao mesmo tempo, todos nos ensinamos mutuamente de diferentes maneiras.

Em relação ao texto de Colossenes 3:16, fiz algumas observações acima que, espero, sejam suficientes para que se perceba que não defendo que o ensino só ocorre em momentos formais. Acredito justamente no contrário. É porque acredito no contrário que não posso ver a proibição de Paulo como universal. Porque existiriam inúmeros momentos e oportunidades de ensino que estariam vedados às mulheres, caso a proibição fosse universal. Se assim fosse, o texto bíblico entraria em contradição interna.
Gostaria só de fazer uma distinção: Paulo não está a falar sobre o dom de ensino, mas sim sobre a atividade do ensino. Nas referências aos dons, como sabes, não existe qualquer comentário em relação ao género de quem recebe o dom. Por outro lado, todos devem e podem ensinar, ou não seria um mandamento recíproco. Existem pessoas que ensinam e percebe-se que não têm o dom do ensino. Outros existirão que, tendo o dom, se recusam a ensinar outros. Será que todos podem ensinar? Sendo um mandamento recíproco, sim. Todos o conseguirão fazer com a mesma mestria? Não, porque nem todos têm o dom (I Coríntios 12:29). Será que todos podem expor a Palavra de Deus? De acordo com I Coríntios 14:31, sim - atendendo ao facto de que existiam mulheres que profetizavam, “todos” poderiam fazê-lo – expondo a Palavra de Deus. (De acordo com I Coríntios 14:34-35, parece que essas intervenções estavam vedadas às mulheres. Mas, como vemos em I Coríntios 11:5 que as mulheres profetizavam, seria necessário aqui também estudar o contexto, para entender o texto. Mas isso, poderá ficar para outra ocasião…).


Poderia seguir ponto a ponto o teu argumento, mas parece-me que as ideias principais estão expostas. Não posso, no entanto, terminar sem uma consideração final. O teu texto, relativamente longo, é uma análise que tem como propósito argumentar contra o que a própria Bíblia ensina. O teu texto é uma exposição a explicar o que a Bíblia não ensina. Em termos de agenda, a tua postura contradiz o texto na sua natureza. Paulo deseja que eles se submetam ao seu ensino. A tua agenda pretende convencer as pessoas a não se submeterem ao ensino de Paulo. "Aquilo é só para os outros. Isto não tem nada a ver connosco." A minha exortação é que, embora discordemos, a igreja deve estar mais centrada em viver o que as Escrituras ensinam em vez de, como fizeste neste caso, ensinar o que elas não dizem.

A minha agenda é e será sempre, conformar a minha vida à Palavra de Deus e não às tradições e imposições humanas (quer sejam recentes, quer sejam antigas). Para mim, é mais importante agradar a Deus, mesmo que essa posição seja desconfortável, incómoda, impopular e fora dos trâmites tradicionais. Uma coisa de que tenho certeza é que a Bíblia é inerrante e não se contradiz. Por isso, as contradições ou incoerências que indiquei nos comentários acima (e não só), não derivam da Palavra de Deus, mas sim de interpretações e aplicações erróneas acerca da mesma. Espero que tanto eu, como as pessoas que, de um modo ou de outro, influencio, se conformem aos ensinos de Paulo e dos demais escritores bíblicos. Mas, que seja somente, de facto, ao que ele realmente disse e ensinou, interpretado, entendido e aplicado com todo o rigor que a Escritura impõe.

Volto a agradecer ao Tiago pelo seu feedback ao meu artigo inicial. Julgo que este diálogo pode ser muito útil e interessante. Quero que entendam que não me assumo como qualquer tipo de arauto ou defensor designado desta causa. Achei-me simplesmente na obrigação de partilhar o meu ponto de vista, com o qual entendo que muitos não concordarão. Mas, apesar disso, pretendo deixar claro que entendo existir espaço suficiente para a saudável convivência destas duas posições diferentes. Não julgo que devamos permitir que a diferença de posição em relação a este assunto que, convenhamos, não é essencial à salvação(!), cause qualquer tipo de mal-estar e até divisões no nosso meio. Se há um momento em que é preciso exercer o amor e respeito mútuos é precisamente quando discordamos. E, também devemos entender que poderemos chegar ao ponto em que simplesmente teremos que concordar em discordar, em vez de manter uma aparente paz só até que “eles” mudem para o “nosso” lado. No seio da igreja de Jesus, não devemos permitir que tal aconteça. Aprendamos a conviver com o salutar debate teológico e com as diferenças que não precisam causar a nossa divisão.

1 comentário:

  1. Já reagi.
    Um abraço,
    Tiago

    https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=358647034254376&id=152417248210690

    ResponderEliminar