02/04/2013

Consagração feminina ao pastorado - I Timóteo 2:11-15

“A mulher aprenda em silêncio com toda a submissão. Pois não permito que a mulher ensine, nem tenha domínio sobre o homem, mas que esteja em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão; salvar-se-á, todavia, dando à luz filhos, se permanecer com sobriedade na fé, no amor e na santificação.” (1 Timóteo 2:11-15).


Muitos entendem que o conteúdo deste texto deve ser entendido à luz de um contexto sociocultural e religioso muito particular. Outros veem neste texto uma orientação universal de Paulo, no âmbito da igreja, aplicável a todas as mulheres, de todos os tempos e de todos os lugares, usando-o, por exemplo, para sustentar uma posição contrária à ordenação de mulheres ao ministério pastoral.
O que Paulo tinha em mente quando escreveu estas palavras? Quais eram as preocupações? Em que contexto foi escrito? Como é que este texto se integra no restante ensino bíblico acerca do mesmo tema?
Sabemos que, em Éfeso, cidade onde Timóteo se encontrava, havia mulheres sacerdotisas que lideravam rituais idólatras impregnados de imoralidade sexual, dos quais, o culto à deusa Artemis era o mais predominante. Não é difícil imaginar que falsos ensinos procedentes destes cultos pagãos tenham sido introduzidos na igreja, pelo que Paulo fez questão de estabelecer princípios que distinguissem claramente o procedimento das mulheres crentes do das anteriores. Este era, portanto, um problema muito concreto daquela igreja, naquele contexto cultural e religioso. Contudo, quando Paulo liga este ensino ao momento da criação e faz referência a Adão, Eva e à própria queda, temos de considerar se a sua orientação tem um caráter universal, aplicável a todas as mulheres, de todas as igrejas, em todos os tempos.
A preocupação de Paulo com os falsos mestres que existiam naquela região e que exerciam a sua influência dentro da igreja é evidente noutras porções da mesma carta a Timóteo: “Mas o fim desta admoestação é o amor que procede de um coração puro, de uma boa consciência, e de uma fé não fingida; das quais coisas alguns se desviaram, e se entregaram a discursos vãos, querendo ser doutores da lei, embora não entendam nem o que dizem nem o que com tanta confiança afirmam.” (1 Timóteo 1:5-7); “Se alguém ensina alguma doutrina diversa, e não se conforma com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, e com a doutrina que é segundo a piedade, é soberbo, e nada sabe, mas delira acerca de questões e contendas de palavras, das quais nascem invejas, porfias, injúrias, suspeitas maliciosas, disputas de homens corruptos de entendimento, e privados da verdade, cuidando que a piedade é fonte de lucro; e, de facto, é grande fonte de lucro a piedade com o contentamento.” (1 Timóteo 6:3-6). Com isto como pano de fundo, analisemos o texto de 1 Timóteo 2:11-15.

Versículo 11: “A mulher aprenda em silêncio com toda a submissão”.
A palavra traduzida como “silêncio”, não significa silêncio absoluto. Trata-se de um termo que implica tranquilidade e calma. Ou seja, sem alvoroço, sem desordem. Também noutro texto, Paulo faz eco da preocupação com a ordem e tranquilidade na igreja quando, diz: “faça-se tudo decentemente e com ordem”, sendo que esta exortação se aplicava, sem qualquer dúvida, tanto a homens como a mulheres (1 Coríntios 14:40). Portanto, a referência direta às mulheres, neste texto, parece dar a entender que a perturbação da ordem e calma teria origem no comportamento de algumas mulheres da própria igreja.
Textos como “cada um considere os outros superiores a si mesmo” (Filipenses 2:3) e “sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo” (Efésios 5:21) deixam claro que o contexto de toda a vida cristã pressupõe uma atitude de humildade e sujeição mútua. Esta sujeição não resulta somente de uma atitude amorosa que precisa existir entre todos os crentes, tendo como exemplo o próprio amor e humildade de Jesus, como é, também, o resultado inevitável da submissão de todos à autoridade de Jesus, através da Sua Palavra.
Importa aqui distinguir o conceito bíblico de sujeição. Enquanto o mundo vê a sujeição como algo passivo que envolve o exercício de autoridade por outrem, a Bíblia ensina que a submissão entre os membros da igreja é uma submissão ativa, voluntária e recíproca, que não implica o exercício de autoridade de um sobre outro. Assim, e de acordo com os melhores princípios de interpretação das Escrituras, quando o texto em análise afirma que A não tem autoridade sobre B, não está, necessariamente, a afirmar que B tem autoridade sobre A. Ou seja, em última análise, o texto não diz que somente a mulher deveria aprender em silêncio, com toda a submissão. Aliás, à luz de todo o registo bíblico, entendemos que A e B devem estar mutuamente sujeitos, quer sejam homens, quer sejam mulheres. Jesus deixou este conceito claro, por exemplo, em Mateus 20:25-28 “Jesus, pois, chamou-os para junto de si e lhes disse: Sabeis que os governadores dos gentios os dominam, e os seus grandes exercem autoridades sobre eles. Não será assim entre vós. Antes, qualquer que entre vós quiser tornar-se grande, será esse o que vos sirva; e qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, será vosso servo; assim como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos”.

Versículo 12: “Pois não permito que a mulher ensine, nem tenha domínio sobre o homem, mas que esteja em silêncio” .
Alguns estudiosos da Bíblia defendem que Paulo não está a falar de duas ações distintas –ensinar e exercer autoridade – mas a referir-se ao ensino como sendo um exercício de autoridade. Embora esta linha de interpretação seja a menos comum no tipo de construção gramatical que consta neste versículo, creem que, se não se interpretar dessa forma e considerarmos as duas ações de forma separada, como absolutos, surgirão dificuldades de coerência com o restante registo bíblico, nomeadamente no que respeita à possibilidade das mulheres ensinarem (David P. Kuske)[1].
No entanto, se considerarmos que Paulo está a referir-se a duas ações diferentes, proibindo ambas, no âmbito circunscrito daquela igreja, naquela época e cultura, não é levantada qualquer dificuldade de coerência com o restante ensino bíblico. Quando, por outro lado, se pretende atribuir um caráter universal a estas proibições, aí sim, sente-se a necessidade de forçar a interpretação de que Paulo está a falar sobre exercer autoridade através do ensino. O que, na minha opinião, também não faz jus ao demais registo bíblico relativo à função do ensino e até mesmo da liderança. Passo a explicar.
A interpretação mais simples deste texto, atendendo à sua formulação gramatical, é a de que existem duas coisas proibidas à mulher: ensinar e ter domínio sobre o homem. Em relação ao ENSINO, entender que esta proibição é universal parece contrariar o restante ensino bíblico, onde encontramos diversas mulheres em situações de ensino e outros ministérios. Por exemplo, em Atos 18:26, lemos sobre o casal Priscila e Áquila que ensinou, em detalhe, a Palavra de Deus a Apolo. O texto deixa claro que ambos ensinaram Apolo. Aliás, uma vez que o nome de Priscila é referido em primeiro lugar, é provável que ela se destacasse em termos ministeriais de Áquila. Ao admitir esta proibição como universal, temos de abranger um vasto leque situações, desde uma simples conversa acerca da palavra de Deus, até ao mais complexo ensino teológico de nível superior, proibindo a mulher de liderar estudos bíblicos, de ensinar na Escola Bíblica Dominical, de produzir textos escritos que possam constituir ensino a homens, de conduzir momentos de louvor, entre muitos outros.
Para resolver as consequências desta interpretação, algumas interpretações deste texto restringem a universalidade da proibição ao “ambiente formal da igreja” e ao ensino dirigido aos homens. Ou seja, as mulheres estariam proibidas de ensinar no ambiente formal da igreja, a menos que, com base em Tito 2:4-5, fosse ensino a crianças e a outras mulheres. Uma das dificuldades com esta interpretação é que faz uma divisão que nunca esteve na mente dos primeiros cristãos, nem de Paulo, para quem não havia distinção entre o ambiente formal da igreja por um lado e as suas vidas normais por outro. Evidência clara disso é, por exemplo, o facto de não haver edifícios destinados à reunião formal da igreja, pois as suas reuniões ocorriam nas casas uns dos outros. Só a partir do terceiro século é que a igreja começou a ter edifícios próprios para a reunião. Portanto, a distinção que hoje fazemos em espaços e momentos formais e não formais da igreja, não existia nas suas mentes. Além disso, no versículo 8 deste capítulo de 1 Timóteo, quando Paulo fala sobre os homens levantarem mãos santas em oração, indica claramente “em todo o lugar”, extravasando as orientações dadas para além de quaisquer espaços ou momentos considerados formais. Também, no capítulo 3, versículos 14 e 15, Paulo acrescenta: “Escrevo-te estas coisas, embora esperando ir ver-te em breve, para que, no caso de eu tardar, saibas como se deve proceder na casa de Deus, a qual é a igreja do Deus vivo, coluna e esteio da verdade.” Neste texto, fica claro que as instruções de Paulo não estão circunscritas às reuniões públicas da congregação, em determinado espaço e ambiente ditos formais, mas ao modo de vida diário de todos os membros da igreja de Deus.
Apesar de, no Novo Testamento, encontrarmos diversas mulheres a ensinar, é de salientar que o cristianismo cresceu num ambiente extremamente desfavorável à mulher, tornando o ensino neotestamentário reconhecidamente progressista para o contexto. É, portanto, natural e compreensível que o número de exemplos de mulheres que ensinavam no Novo Testamento seja reduzido.
Ainda no versículo 12, Paulo proíbe que a mulher exerça DOMÍNIO ou AUTORIDADE sobre o homem. No texto original, o termo utilizado é “authentein” e não “exousia”, este, sim, habitualmente traduzido como autoridade. A palavra “authentein” tem o significado peculiar de autoridade usurpada ou indevidamente apropriada, referindo-se ao exercício de domínio ilegítimo. É sobremaneira importante compreender que Paulo não está a defender, neste texto, que o homem deve exercer domínio sobre a mulher, mas sim que a mulher não deve exercer domínio sobre o homem. Pode parecer a mesma coisa, mas não é. Como vimos anteriormente, o contexto das relações interpessoais no ambiente da igreja não se baseia em equilíbrios de autoridade, mas sim numa vivência de sujeição mútua. E, quando assim é, não há como a mulher ter autoridade sobre o homem, da mesma forma que o homem também não tem autoridade sobre a mulher. De facto, há orientações que apontam no sentido da mulher se sujeitar ao homem, mas sempre no contexto do casamento. Ou seja, Paulo refere-se à sujeição da esposa ao seu marido e não a uma sujeição de todas as mulheres a todos os homens, excetuando o dever de sujeição mútua a que todos estão obrigados.
Caso Paulo estivesse a proibir as mulheres de ensinar, de forma universal, teríamos de concluir existir uma evidente contradição, por exemplo com a sua orientação em Colossenses 3:16, onde diz à igreja – constituída por homens e mulheres: “A palavra de Cristo habite em vós ricamente, em toda a sabedoria; ensinai-vos e admoestai-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, louvando a Deus com gratidão em vossos corações.” Sendo o ensino um mandamento recíproco, logo universal para a igreja em todos os tempos, a única conclusão que se pode tirar deste texto a Timóteo é que Paulo está a referir-se a uma situação em concreto, circunscrita àquela época e contexto cultural. Além disso, se a indicação para que a mulher fique em silêncio fosse universal, não faria sentido que em I Coríntios 11:5, lêssemos que as mulheres oravam e profetizavam. Profecia, como sabemos, não se refere somente à comunicação de visões proféticas, sob a influência direta de Deus, mas inclui a ideia de comunicação da Palavra de Deus através da pregação, na igreja.
Finalmente, há que suprimir, do conceito do ministério pastoral, qualquer vestígio de exercício de domínio ou autoridade. A verdadeira liderança cristã não é baseada no exercício de autoridade, mas sim no humilde serviço como exemplo para o rebanho. Discuto este assunto aqui http://vidaemabundancia.blogspot.pt/2012/10/lideranca-crista.html, mas deixo os seguintes textos como referência: Mateus 20:25-28; Marcos 10:42-43; 1 Pedro 5:2-3; 1 Timóteo 4:12; Tito 2:7; João 13:4-17; Atos 20:35; Filipenses 3:17. A partir destes e outros textos, o Novo Testamento deixa claro que a autoridade da mulher sobre o homem é proibida, tal como é proibido o exercício de autoridade de qualquer líder (masculino ou feminino) sobre o rebanho.

Versículo 13: “Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva”.
A interpretação dos versículos 11 e 12 pode, facilmente, ser enquadrada no contexto sociocultural em que Timóteo exercia o seu ministério, nomeadamente, na situação em que algumas mulheres ensinavam heresias. Já no versículo 13, o argumento de Paulo parece remeter o assunto para outro nível, relacionando-a ao momento da criação. Será que na mente de Paulo, a sequência da criação do homem e da mulher constitui o ponto de partida para a sua argumentação? Ou seja, a sua alusão à criação fundamenta uma verdade de aplicação universal, a de que a mulher não deve ensinar? Ou terá ele recorrido a este argumento para corroborar a sua posição em relação ao problema concreto que se vivia naquela igreja? Para encontrarmos resposta a esta questão, notemos outra ocasião em que Paulo usa uma estrutura de argumentação semelhante.
Em 1 Coríntios 11:7-16, Paulo refere-se à questão das mulheres manterem a cabeça coberta e, nos versículos 9 e 12, também se reporta ao registo da criação. A maioria dos estudiosos e comentadores da Bíblia é de opinião que esta orientação à igreja de Corinto deve ser interpretada à luz de uma preocupação cultural e contextualizada à sua época, não a entendendo como uma orientação universal. Se admitimos essa interpretação neste caso, isto é, que a referência à criação serve mais para conferir peso ao argumento do que se assume como a origem do próprio argumento, naturalmente, temos de aceitar a possibilidade de Paulo fazer referência à ordem da criação em 1 Timóteo 2:13, como forma de consubstanciar o seu argumento e não como forma de universalizar a sua aplicação.
Ainda, por outro lado, a referência à ordem da criação não implica, de modo algum, superioridade ou inferioridade, quer por parte de homem, quer por parte da mulher. Aliás, o modo da criação é evidência disso mesmo, sendo costume, até, salientarmos que a mulher foi criada a partir do lado de Adão, como símbolo da sua igualdade em importância e natureza. No que respeita ao papel da mulher, é evidente que existem funções próprias do homem e funções próprias da mulher. No entanto, funções diferentes não implicam posições diferentes. Além disso, a função de “adjutora” do homem não deve ser entendida simplisticamente, como aquela que o ajuda a realizar as suas funções, mas como alguém que partilha das suas funções e responsabilidades. Ainda assim, este papel é sempre considerado no âmbito do casamento.
A indicação de Paulo aponta para a ordem cronológica da criação o que não implica necessariamente uma ordem hierárquica. Ou seja, o facto de o homem ter sido criado em primeiro lugar não lhe confere qualquer tipo de superioridade ou primazia. (Até porque se assim fosse, os animais, criados primeiro que Adão, teriam primazia sobre a humanidade!) Paulo consegue, então, demonstrar o que pretende: a mulher não pode ter supremacia sobre o homem porque nem mesmo a ordem da criação lhe daria essa possibilidade. Ademais, lemos em Génesis 3:16 que a sujeição da esposa para com o seu marido (e não da mulher para com o homem) é declarada após a queda. Este facto é importantíssimo, porque só pode significar que antes da queda, essa sujeição não existia. Portanto, o argumento relativo à ordem da criação não se destina a defender a autoridade do homem sobre a mulher, mas sim a defender que a mulher não tem autoridade sobre ele.

Versículo 14: “E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão”.
Este texto poderia dar a entender uma maior fragilidade feminina no que respeita ao ensino e doutrina, uma vez que teria uma maior suscetibilidade para ser enganada, e alguns defendem ser, de facto, assim. Mas, o maior problema aqui não é este. Uma vez que é sabido que ambos caíram em transgressão, a diferença está no facto de Eva ter sido enganada e, como parece ser o sentido do texto de Paulo, Adão não ter sido enganado. Partir do princípio que Adão caiu em transgressão sem ser enganado, leva-nos à conclusão que o fez conscientemente. Será que Adão partilhou com ela essa proibição, mas não o fez de forma clara, indicando as consequências reais de tal violação? Será que Eva tinha pleno conhecimento das consequências e, mesmo assim, a serpente conseguiu enganá-la? Será que a serpente escolheu Eva por ser o elo mais fraco? Ou será que a escolheu porque, como ela teria recebido a informação em segunda mão, estaria menos convicta da sua veracidade? Só podemos especular sobre o que terá, realmente, acontecido entre o momento em que Deus ordenou a Adão que não comessem do fruto e a queda.
Seja como for, a referência que é feita neste texto ao engano da mulher parece bater certo com a interpretação de que esta orientação de Paulo se circunscreveu a uma época e local específicos. Isto porque em 2 Timóteo 3:6, lemos sobre algumas mulheres que eram enganadas por falsos mestres e, provavelmente, tornadas em potenciais transmissoras das mesmas heresias. É, portanto, natural que Paulo trace o paralelo entre o engano em que estas mulheres caíram, com o engano em que Eva caiu, de forma a desencorajar as mulheres da igreja, naquele contexto cultural, a envolverem-se em atividades de ensino.
A ideia de que o argumento relativo à criação não implica uma aplicabilidade universal da proibição dirigida às mulheres no texto de Paulo, é reforçada pelo facto de que a referência à criação ocorre no âmbito do relacionamento familiar de marido e esposa. O conceito de liderança a que Paulo recorre ao referir-se à criação é relativo à liderança do marido em relação à sua esposa. Uma vez que o relacionamento conjugal só serve de paralelo com a igreja no sentido em que a igreja é comparada à esposa e Cristo ao esposo (Efésios 5:22-30), não existiria coerência de interpretação bíblica ao fazer equivaler o marido ao pastor ou líder e a esposa à congregação ou liderados. Assim sendo, o argumento usado por Paulo não implica a aplicação universal da proibição indicada, mas destina-se a consubstanciar uma orientação localizada no tempo, no espaço e na cultura.

Versículo 15: “Salvar-se-á, todavia, dando à luz filhos, se permanecer com sobriedade na fé, no amor e na santificação”.
No original, é usada a voz passiva quando Paulo se refere à salvação: “Será salva…”. Este facto indica que a salvação não é algo que a mulher faça, mas algo que lhe é feito. Ou seja, não depende das suas obras, entre as quais poderíamos incluir o dar à luz filhos, mas depende da ação de outra entidade, a qual concluímos ser Deus, em conformidade com o restante registo bíblico.
Com esta afirmação Paulo não apresenta um cenário de desespero devido à transgressão da primeira mulher. Caso contrário, estaria a emitir uma inevitável sentença condenatória a todas as mulheres. Antes, apresenta a solução, apontando para a possibilidade de salvação de cada mulher. A forma como a frase está construída parece dar a entender que a forma pela qual a mulher pode ser salva seria dando à luz filhos. No entanto, “dando à luz filhos” não se refere ao modo através do qual é salva, mas sim ao meio – ambiente ou circunstâncias – no qual é salva. O que lhe garante a salvação é a permanência na fé, no amor e na santificação, a mesma condição que a Bíblia impõe a todos – homens e mulheres – que crerem. A diferença entre a mulher e o homem é o contexto em que isso acontece, destacando, no caso da mulher, por razões evidentes, o papel de mãe.
Este versículo aponta, ainda, para a verdade de que, embora iguais em natureza e dignidade, homens e mulheres desempenham papéis diferentes. Sendo a própria anatomofisiologia a fonte dessa diferença, consubstancia-se a ideia de que os diferentes papéis e responsabilidades circunscrevem-se à esfera familiar, entre marido e esposa. Naturalmente, a função reprodutiva salientada neste versículo pertence ao seio familiar e não à vivência eclesiástica.

Perante estas considerações, concluo que as orientações proibitivas em relação às mulheres, neste texto, têm uma aplicabilidade circunscrita ao contexto vivido na igreja onde Timóteo era pastor e à época em que as mesmas foram escritas. A referência quer à criação, quer à queda, servem como elementos fortalecedores do argumento de Paulo, não implicando uma universalidade das referidas proibições, para todos os locais e épocas. No entanto, os princípios de respeito por quem ensina e pelos momentos de ensino, o não exercício de autoridade entre os membros do corpo, a submissão mútua e a rejeição de situações que potenciem o desenvolvimento de heresias na igreja, mantêm-se em pleno vigor para a igreja em todos os lugares e épocas.




[1] http://www.wlsessays.net/files/KuskeTimothy.pdf

11 comentários:

  1. Gosto.
    Já vi que esse é assunto na ordem do dia.

    Outra explicação que li num livro de arqueologia, não me lembro qual, sobre o pio das mulheres nas igrejas comentei resumidamente num post do FB do Virgílio Barros um pouco a despachar mas aqui vai também: "A polémica é antiga mas muitos querem sempre trazê-la para o presente. A informação que tenho sobre essa instrução de Paulo é que em tempos de grande disputa teológica nas Sinagogas sobre se Jesus era ou não o Messias e o facto de as mulheres terem que sentar numa galeria fazia que elas não ouvissem bem e entendessem claramente o que estava a ser dito. Já ouvi outras explicações mas para concluir desta forma basta ler um livro de arqueologia ou visitar uma sinagoga. Os que querem calar as mulheres mandem-nas também, em coerência, para as galerias, e se não as houver, construam-nas. Já agora deitem fora os sistemas de som MODERNOS porque não está na Bíblia qualquer licença para o seu uso."

    Relativamente ao véu à uns tempos achei aqui também uma explicação interessante: http://www.estudobiblico.org/novo-testamento/o-evangelho/cartas-de-paulo/epistolas-aos-corintios/1-corintios/724-o-uso-do-veu-na-igreja . Com frequência comentem-se erros de interpretação com o que é citado nas escrituras como referência a uma prática estabelecida (e errada) e depois não se consegue ler a reposição daquilo que é correto (ou tenta-se encontrar vias de explicação pouco claras) e que na verdade deveria ser aplicado. Dá uma vista de olhos neste caso se entenderes aqui, porque durante anos esta foi uma pratica errada nas Assembleias e que causou estragos irreparáveis em muita gente: http://igrejaconquistadores.blogspot.pt/2013/01/outro-tipo-de-comportamento.html

    Preferi comentar aqui porque a visibilidade pública é menor, e ao mesmo tempo fiquei na duvida se me devia ter metido nesta questão porque já percebi que este assunto está em brasa :D na cabeça de muitos.

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  2. Caro Samuel,

    Obrigado pelo feedback!

    1 abraço!
    Ruben

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  3. Estou grato por esta reflexão. A seu tempo, tenciono debruçar-se sobre o assunto. Ainda não consigo tirar conclusões, embora sinta liberdade de me deixar dirigir por mulheres em liderança,seja a que nível for.

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  4. Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

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  5. Reflexão muito equilibrada e pertinente!

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  6. Obrigado pelo feedback, Isabel Rute!

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  7. Muito interessante,um assunto pouco abordado,obrigada!

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  8. Muito obrigado por este texto, há verdade de Deus nele. Obrigado mesmo.

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  9. Porque Deus então em sua grande maioria escolheu homens e não mulheres? Seria Deus afetado pela cultura?

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    1. Questão interessante. Não creio que se trate de Deus ficar afetado pela cultura, mas de escolher trabalhar na cultura e através da mesma. Como exemplo disso mesmo, vemos a forma como Jesus se integrou na cultura do seu tempo e lugar e, paulatinamente, foi introduzindo elementos de transformação da mesma (ex: episódio da mulher Samaritana). As aparentes limitações a que Deus se sujeita, em função da cultura humana, não são por qualquer razão inerente à Sua natureza, mas sim porque nós (humanidade) precisamos de tempo, de processo e de progressão. Os escritos de Paulo são um exemplo desse processo de transformação em relação à cultura e vivência predominantemente masculina do Antigo Testamento.

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