27/02/2013

Culto racional

“Rogo-vos pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.” Romanos 12:1
Neste texto, Paulo pede que os crentes em Roma apresentem os seus corpos como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, explicando que essa apresentação é o nosso culto racional.
Sacrifício é, normalmente, associado à ideia de algo que nos custa ou que é de difícil execução. Num episódio interessante registado em 2 Samuel 24, David pretendia comprar um terreno para erguer um altar ao Senhor. Quando falou com o dono da terra que logo a ofereceu a David, este respondeu: “Não, mas por preço justo to comprarei, porque não oferecerei ao SENHOR meu Deus holocaustos que não me custem nada.” (2 Samuel 24:24). É, portanto, a noção de que algo nos é especialmente caro ou custoso que determina um ato sacrificial, essencialmente, como uma entrega ou rendição. Paulo, porém, ensina-nos que este ato de rendição a Deus não é penoso, mas vivo, santo e agradável. Vivo, porque é contínuo e transversal a todas as dimensões da nossa vida. Melhor ainda, é a nossa própria vida oferecida a Deus. Sendo vivo, não envolve mortificação física no sentido a que muitos a associam, por exemplo através da autoflagelação. Quando Paulo admoestou os crentes em Colossos a mortificarem os seus membros, explicou-lhes que deviam abandonar todo o pecado, como impureza sexual, avareza e idolatria” (Colossenses 3:5). A mortificação que o crente deve cumprir é a do pecado e, por isso mesmo, o texto nos diz que o sacrifício deve ser santo: separação dos valores e princípios morais do mundo e uma aproximação cada vez maior do próprio Deus. Finalmente, deve ser agradável. Deus, sendo o alvo da nossa adoração aquele a quem devemos agradar, através da entrega da nossa própria vida em santidade – sacrifício vivo e santo.
Fica assim claro que culto, porque é vivo, santo e agradável, não se refere a um momento de adoração, mas a uma atitude constante de vida. Não se circunscreve aos momentos em que nos reunimos em congregação, nem aos momentos devocionais individuais. Na verdade, se a nossa vida não é uma expressão da contínua adoração e entrega a Deus, é muito provável que isso também não esteja a acontecer nos momentos de culto congregacional. Podemos mimetizar frases e movimentos de outras pessoas, procurando produzir em nós próprios emoções; podemos camuflar o que somos para parecer o que não somos. Contudo, não estamos a cultuar a Deus se essa não é a atitude constante da nossa vida.
Finalmente, Paulo acrescenta que o culto deve ser racional. Ou seja, essa atitude de adoração e entrega para com Deus deve ter fundamento na razão, deve ser lógica, deve fazer sentido. Isto não implica que tenhamos que compreender tudo acerca de Deus e da Bíblia através da nossa razão, porque isso não é possível. É por isso que nos é necessária a fé, através da qual cremos e aceitamos toda a revelação de Deus, tanto a que compreendemos, como a que não conseguimos entender racionalmente. Mas, aqui, o culto racional não se refere tanto à nossa aceitação da revelação divina, como se refere à nossa resposta a Deus. Será, então, que uma entrega sacrificial da nossa vida, de forma santa e agradável a Deus, pode ser efetuada de forma racional? Não faria mais sentido que uma emotividade intensa fosse o impulso para a adoração?
Importa referir que emotividade e razão não têm de ser necessariamente opostas. Podem e devem andar juntas. Aliás, uma serve de equilíbrio à outra e vice-versa. É possível, se não mesmo essencial, ter uma vivência de culto racional a Deus, abraçando as nossas emoções de forma intensa.
É nesta medida que é fundamental redobrarmos a nossa atenção para não cedermos a alguns obstáculos à nossa vivência de adoração racional a Deus. Estas dificuldades estão presentes sempre, mas vamos agora centrar-nos nos momentos em que nos reunimos e expressamos a nossa adoração a Deus enquanto congregação. Esta não é uma abordagem exaustiva a todos os obstáculos existentes, nem um completo aprofundamento da discussão de cada um deles, mas espero partilhar alguns elementos que nos ajudem a refletir.

Supremacia da emoção
O contrário de racional, não é emocional. O contrário de racional é irracional. A emotividade pode e deve estar presente nas nossas vidas, uma vez que fomos assim formados por Deus. Quando me refiro ao obstáculo da supremacia da emoção estou a falar de um exagerado foco em expressões emotivas e de uma marcante sobrevalorização da emoção.
Expressões como “sentir o Senhor”, “sentir o mover do Espírito Santo”, “sentir a sua presença” e outras similares, colocam o foco no sentimento e não no conhecimento. Toda a Bíblia aponta para a necessidade de conhecermos Deus e, consequentemente, de lhe obedecermos. Por outro lado, não encontramos um único desafio bíblico para sentir Deus. Não estou a dizer que não podemos sentir a sua ação nas nossas vidas. Sem dúvida que podemos, mas, mais importante do que isso, é saber que ele está presente e a trabalhar, mesmo quando não o sentimos. A realidade é que os nossos sentimentos e emoções flutuam e são influenciados pelos mais diversos fatores internos e externos. Por esta razão, colocar a ênfase da experiência cristã na emotividade, não só é um risco, como não honra o princípio do culto racional.
As pessoas são mais facilmente manipuláveis através da influência das emoções. Por isso, é frequente que as palavras, a música, os movimentos, a iluminação e diversos outros fatores sejam usados para conduzir e condicionar a resposta que se espera que um determinado grupo de pessoas tenha. A música, por exemplo, pode ser uma excelente ferramenta para veicularmos as nossas emoções. Mas, mal usada, pode servir para nos desviar do propósito de “conhecer e prosseguir em conhecer ao Senhor”. É fácil encontrarmos pessoas que foram levadas a tomar determinadas decisões, por via das circunstâncias que foram criadas durante o momento do louvor, da mensagem ou do apelo, que não tomariam se as tivessem refletido e ponderado, racionalmente. Mais grave ainda é que as decisões tomadas por manipulação não têm valor espiritual e podem, mesmo, ter dois efeitos contraproducentes: o primeiro é que uma decisão tomada com base em pressupostos errados pode inquinar todo o processo subsequente, neste caso a caminhada de vida cristã; o segundo é que a pessoa pode sentir-se empurrada a fazer algo contra a sua vontade e reagir afastando-se. Por exemplo, não é possível levar alguém, a converter-se, se essa pessoa não o quiser.

Ditadura da tradição
Num outro extremo, encontramos aqueles que, sob uma capa de conservadorismo bíblico, defendem que precisamos manter as tradições. Normalmente, estes grupos subvalorizam a expressão das emoções e sobrevalorizam uma observância solene e mecânica de vários ritos e rituais. Nem sempre o afirmam expressamente. Falam de guardar os preceitos do Senhor e manter o mundo fora da igreja, mas na realidade, agarram-se à tradição como se da própria Bíblia se tratasse. Esta tendência é igualmente nefasta para o conceito do culto racional, porque as coisas são feitas com uma única fundamentação: “sempre se fez assim” ou “nunca se fez de outra forma”.
A ditadura do status quo é transversal a quase tudo: as roupas que se devem usar, as palavras que se devem dizer em cada momento da celebração, quando se deve ficar sentado e quando se deve ficar levantado, como devem ser os bancos, quais devem ser os instrumentos musicais, qual o estilo musical sagrado, qual o modelo certo para os cortinados, o momento certo para cumprimentar, as estratégias de partilha do Evangelho (quando existentes), etc. Considerar alterar o que quer que seja, para tornar o culto mais inteligível e racional para o cidadão do século XXI é visto como um atentado contra a pureza das Sagradas Escrituras e como uma permissão para o mundo invadir a igreja.
Em primeiro lugar, importa referir que o mundo não entra na igreja quando se introduz uma bateria no conjunto de instrumentos usados na celebração ou quando se começa a cantar coros em vez de hinos. O mundo entra na igreja, quando os crentes cedem ao pecado nas suas vidas. Em segundo lugar, uma elevada percentagem das tradições que se teima em manter não encontram respaldo nas Escrituras. Em vez disso, foram iniciadas depois do registo bíblico estar concluído (algumas há poucas décadas), porque faziam sentido para a igreja naquela época, naquele lugar, naquela cultura.
Negar uma necessária contextualização da vivência cristã no tempo em que vivemos, dentro da amplitude que a própria Palavra de Deus permite, através de táticas ditatoriais mais ou menos veladas, não só é errado, como contribui significativamente para uma vivência irracional da fé cristã.

Superficialidade da sobrespiritualização
Ensinar que a Bíblia não deve ser interpretada literalmente é mais um dos obstáculos ao nosso culto racional. Diversas tendências religiosas interpretam a Bíblia como se o seu texto não tivesse qualquer correspondência com factos, eventos, lugares, datas e pessoas reais. Para essas pessoas, as narrativas bíblicas são meras alegorias ou mitos que servem simplesmente para extrairmos alguns valores e princípios gerais para a nossa ética e moralidade. Esta tendência liberal de interpretação bíblica não faz mais do que tentar destituir a Bíblia da sua veracidade, autenticidade e inerrância, a coberto de um discurso que advoga uma racionalidade superior. Curiosamente, essa pretensa racionalidade esvazia o registo bíblico da sua sobrenaturalidade e faz com que tudo nele contido seja simplesmente esbatido na sua relevância e pertinência, procurando, num esforço absolutamente fútil, uma sobrespiritualização absolutamente desnecessária.
Naturalmente, nem tudo na Bíblia é passível de interpretação literal. Além de narrativa, também existe poesia, profecia, descrições simbólicas, etc., cuja interpretação poderá não ser necessariamente literal. No entanto, no que respeita às narrativas contidas na Bíblia, não há razão para não para concluir tratar-se de um registo com uma completa correspondência com eventos reais. Em algumas destas ocasiões, devido à natureza sobrenatural do evento, recorremos à fé para crer e aceitar, não como um contrário da razão, mas como um complemento. Sobrespiritualizar ao ponto de relativizar o texto bíblico irá, sem qualquer dúvida, redundar num ensino insonso, irrelevante e inconsequente, o qual por sua vez enfraquece qualquer propósito de vivência de um culto racional agradável a Deus.

Vivamos, de facto, uma adoração e entrega a Deus completa, integral e racional. Tenhamos a coragem e a honestidade de enfrentar os obstáculos e, com ajuda de Deus, demovê-los gradual e consistentemente.

2 comentários:

  1. Texto muito bem elaborado. Eu coloco uma ênfase no culto racional, em especial no termo culto que abrange toda a nossa vida, mas também, obviamente, o culto congregacional. Racional, ligo fortemente ao nível do pensamento em categorias de fé ou, em se adquirir a mente de Cristo.
    Os três pontos de aplicação seguintes são soberbos.
    Já agora um pequeno testemunho pessoal: Neste últimos tempos tenho mais debitado em termos teológicos do que "consumido", no bom sentido da expressão. Este texto li três pois constatei que não estava captando o "espírito" do texto. Pela última vez o captei, e captei a forma como Deus falou ao teu coração. Isto revela a grandeza dos ministérios!

    ResponderEliminar
  2. Que texto fantástico muitas vezes as emoções nos confunde.

    ResponderEliminar