15/10/2012

Liderança cristã

Quando o assunto é liderança cristã e, particularmente, liderança pastoral, é frequente surgir a palavra autoridade.
Normalmente, são três as perspetivas quanto ao exercício de autoridade na liderança: a primeira é a de que o líder cristão deve exercer autoridade sobre as pessoas que lidera; a segunda é a de que o ministério de liderança deve ser desenvolvido através do exemplo, sem que isso implique uma posição de superioridade em relação aos demais; a última, e provavelmente, a mais frequente, integra as duas anteriores, afirmando que ambas as perspetivas não são conflituantes e que se harmonizam biblicamente.
Encontramo-nos frequentemente a defender que o líder cristão tem e deve exercer autoridade sobre o rebanho que lhe foi confiado. Nem sempre o termo é usado explicitamente, mas suavizamo-lo, recorrendo a expressões como “liderança espiritual” sobre as pessoas lideradas, o que tem o sentido unívoco de autoridade. Recorrem-se, por vezes, a alguns subterfúgios para substituir o termo "autoritário", como é o caso do “ensino autoritativo” de que alguns líderes falam.
Na língua portuguesa, note-se, autoridade significa: direito legalmente estabelecido de se fazer obedecer, valor pessoal (dicionário Priberam), poder, domínio, dominação, senhorio, potestade (dicionário do Word). Portanto, ao mínimo contraditório e, para disfarçar a perceção da nossa própria incongruência, afirmamos que autoridade não é o mesmo que autoritarismo e que a autoridade não é inerente ao líder, mas foi-lhe delegada por Cristo. Dizemos que não se trata, portanto, de arbitrariedade e prepotência, mas, sim, de uma autoridade exercida debaixo da submissão a Deus e aos princípios bíblicos. Este é o racional coletivo que leva a maioria de nós a defender que o líder cristão está numa posição de autoridade e que é sua responsabilidade exercê-la sobre a igreja.
Contudo, da reflexão que a seguir desenvolvo, a minha conclusão é que, quer do ponto de vista doutrinário, quer no sentido prático da sua aplicação, as perspetivas de liderança pela autoridade e da liderança pelo exemplo se excluem mutuamente.


1 – O Apóstolo Paulo
Como reforço da posição que defende a liderança como exercício de autoridade, indicam-se diversos textos em que Paulo advoga a autoridade que tinha, no que respeitava ao seu ensino, ao seu exemplo e à sua própria função. É importante referir que, de facto, o ensino e a pregação do líder cristão deve conter a autoridade que deriva de uma única fonte essencial: a Palavra de Deus. As Escrituras são o registo da vontade de Deus para as nossas vidas e, como tal, têm a autoridade máxima, absoluta e final sobre nós. Mas é, também, essencial ter presente que esta autoridade não é do líder, nem lhe é inerente por razão da função, ofício ou pessoa. Esta autoridade pertence à Palavra e nunca deixará de pertencer. Por isso mesmo, um dos maiores desafios do ensino cristão é que o mesmo seja feito de tal forma que fique claro que a autoridade à qual as nossas vidas se devem submeter é a da Palavra e não a de quem a ensina. Por outras palavras, os líderes não têm a autoridade das Escrituras. A autoridade das Escrituras é que os deve ter a eles, bem como ao rebanho.
No que respeita ao exemplo do líder cristão, é evidente que um líder não tem autoridade moral para ensinar determinada porção das Escrituras com a qual o seu próprio testemunho não seja coerente. Contudo, salvaguardando situações de grosseira insistência no pecado, diria que isso não é razão para deixar de ensinar. Afinal, todos os líderes, como toda a igreja, caminham para o alvo, procurando a santificação e uma vida em conformidade com o texto sagrado. Isto não é autoridade, uma vez que a autoridade continua a ser a da Escritura. Trata-se, essencialmente, de coerência e verdade na vida do líder.
Relativamente à defesa que Paulo faz da sua autoridade, deve ficar claro que Paulo não era um líder cristão como os demais. Paulo era Apóstolo, logo, a sua autoridade era apostólica, conferida por Jesus, para o lançamento dos alicerces de uma das mais substanciais partes do registo fonte da nossa fé. Para aqueles que defendem a inexistência da sucessão apostólica, como eu (de acordo com os critérios de Atos 1:21-22), é perfeitamente evidente que a autoridade com que Paulo ensina, escreve e se relaciona com o rebanho não teve continuidade, tendo ficado documentada nos seus escritos, alguns dos quais analisamos a seguir.


2 – Bíblia e autoridade
Importa analisar alguns textos que são usados para fundamentar a liderança como posição de autoridade ou como o exercício de liderança espiritual sobre o rebanho.
Em II Coríntios 10:8, Paulo afirma:
«Pois, ainda que eu me glorie um tanto mais da nossa autoridade, a qual o Senhor nos deu para edificação, e não para vossa destruição, não me envergonharei.»
Ao usar o plural para defender que recebeu autoridade para edificação, Paulo parece incluir Timóteo que, de acordo com o primeiro versículo da carta, se encontrava com ele, mas não foi identificado como Apóstolo.
«Paulo, apóstolo de Cristo Jesus, pela vontade de Deus, e o irmão Timóteo, à igreja de Deus que está em Corinto, com todos os santos que estão em toda a Acaia.» (II Coríntios 1:1)
Fica, então, a questão: será que a autoridade foi delegada aos líderes cristãos? É essencial atender ao contexto desta afirmação, em que Paulo responde a acusações que colocavam em causa a sua legitimidade. Paulo usa, então, o argumento da sua autoridade apostólica, como evidência de que estava divinamente comissionado para este ministério (certamente, em referência ao encontro com o Senhor, na estrada de Damasco, e momentos posteriores, incluindo o período que passou na Arábia). Esta é, portanto, uma defesa pessoal, contra ataques pessoais em que Paulo está a falar, exclusivamente, de si. Contudo, atendendo ao facto de que Timóteo integrava a equipa sob a sua liderança, e porque a edificação da igreja era propósito de ambos, era natural que o incluísse no discurso. Não é, portanto, sinónimo de que Timóteo fosse Apóstolo (II Coríntios 1:1), nem de que partilhasse a mesma autoridade apostólica. BARNES parafraseia Paulo assim:
Se eu fizesse ainda mais altas declarações do que as que tenho feito de um comissionamento divino. Eu poderia usar mais altas evidências do que as que tenho usado de que eu sou enviado pelo Senhor Jesus Cristo (…) Da minha autoridade como apóstolo, o meu poder para administrar disciplina e para dirigir os assuntos da igreja.»
Em I Tessalonicenses 5:12, Paulo refere-se àqueles que presidem sobre o rebanho.
«Ora, rogamo-vos, irmãos, que reconheçais os que trabalham entre vós, presidem sobre vós no Senhor e vos admoestam.»
Esta é uma referência à função e responsabilidade de liderar o rebanho. Como harmonizar a interpretação deste texto com outros em que o conceito de autoridade ou liderar sobre parece ser rejeitado? A verificação do texto original pode ser um bom ponto de partida. “Presidir sobre” (proistemi de pró = perante + hístemi = pôr, colocar, ficar em pé) significa, literalmente, "os que são colocados perante vós". Proistemi tem, assim, o sentido básico de ficar em pé perante outros e, assim sendo, transmite a ideia de liderança.
HIEBERT esclarece:
«Proistemi significa literalmente ficar perante, portanto ficar à cabeça, dirigir, governar. Pode denotar liderança informal ou gestão de qualquer tipo, mas a utilização papírica estabelece que pode ser usado para vários tipos de oficiais. Aponta para a direção espiritual que estes homens estão a dar à igreja, uma reconhecida função do ancião. Combina os conceitos de liderar, proteger, e cuidar de.»
Stedman, ainda, acrescenta um importante apontamento relativamente à tradução desta expressão:
«A tradução das Escrituras foi realizada numa igreja que tinha uma liderança com uma hierarquia altamente estruturada. Por isso, muitas referências são traduzidas nessa direção. A frase “os que presidem sobre vós no Senhor” não é uma boa tradução. Reflete um relacionamento contra o qual toda a Escritura fala. Jesus disse aos seus discípulos “não queirais ser chamados Rabi; porque um só é o vosso Mestre, e todos vós sois irmãos” (Mateus 23:8). Os cristãos são irmãos. Infelizmente, isto não é praticado em muitos lugares. O que está, de facto, a ser dito aqui em Tessalónica é “respeitem os que trabalham entre vós e permanecem perante vós, no Senhor”. O apóstolo está a referir-se aos que ficam em pé na frente e lideram todo o grupo. Não existe qualquer sugestão de alguém estar “sobre” os outros. A tradição originou que a tradução apropriada fosse perdida de vista, ao longo dos anos. Necessita grandemente de correção. O que Paulo está a dizer é, portanto, “sigam os vossos líderes.»
Ainda relativamente a este texto, importa referir que o Senhor da igreja, conhecendo a tendência humana para nos deixarmos levar por modelos de liderança nefastos para a igreja, estabeleceu um antídoto eficaz – as lideranças partilhadas ou plurais. Neste texto, Paulo usa o plural para se referir à liderança. Verifica-se, em praticamente todos os textos do Novo Testamento referentes a este tema, que as lideranças eram plurais. Nos textos a seguir, verificamos que existiam diversos irmãos encarregues de liderar os rebanhos:
«Ora, na igreja em Antioquia havia profetas e mestres, a saber: Barnabé, Simeão, chamado Níger, Lúcio de Cirene, Manaém, colaço de Herodes o tetrarca, e Saulo.» (Atos 13:1)
«Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem o que ainda não o está, e que em cada cidade estabelecesses anciãos, como já te mandei.» (Tito 1:5)
Não entendo que estes textos constituam evidência suficiente para defender o governo da igreja de acordo com um modelo presbiteriano. Acredito no governo da igreja de acordo com o princípio do sacerdócio universal dos crentes e autonomia da igreja local, o que pressupõe a igualdade intrínseca e a participação de todos os membros da congregação. O que estes textos acrescentam é que Deus providenciou uma forma para diluir eventuais pretensões de poder oligárquico, bem como para permitir uma maior e melhor proliferação ministerial resultante da diversidade de dons no grupo de liderança. Sobre este texto, MACDONALD comenta:
«Este versículo é um dos muitos no Novo Testamento que mostra que não existia governo de um homem só, nas igrejas apostólicas. Existia um grupo de anciãos em cada congregação, pastoreando o rebanho local (…) Em Tessalónica, não existia um único presidente, um ministro no nosso sentido, possuindo até certa extensão uma responsabilidade exclusiva; a presidência estava na mão de uma pluralidade de homens.»
Neste ponto, importa referir que muitos líderes atuais referem que não encontram pessoas idóneas, disponíveis ou capacitadas para os acompanhar num ministério de liderança partilhada e plural. Quando este é, realmente, o caso, acredito que o líder deve assumir a mobilização, formação e capacitação de líderes como uma das principais prioridades do seu ministério, em conformidade com Efésios 4:11-12:
«E ele deu uns como apóstolos, e outros como profetas, e outros como evangelistas, e outros como pastores e mestres, tendo em vista o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo.»
Infelizmente, uma das razões para a inexistência de pessoas disponíveis e capacitadas para constituir uma equipa de liderança é o próprio líder, quando desencoraja, ainda que subtilmente, possíveis candidatos a essas funções, e, não raramente, bloqueia ativamente qualquer acesso não autorizado à sua esfera de poder.
Em I Timóteo 5:17, Paulo faz, novamente, referência ao exercício do governo na igreja.
«Os anciãos que governam bem sejam tidos por dignos de duplicada honra, especialmente os que labutam na pregação e no ensino.»
O governo da igreja é uma função e uma responsabilidade que é atribuída a alguns membros do corpo, para o benefício comum, conforme as explicações de Paulo acerca dos dons espirituais, em diversas passagens. A referência aos que governam bem deve ser entendida na perspetiva daqueles que realizam esta função, com todas as suas tarefas e responsabilidades, de acordo com o modelo divino, nomeadamente, de acordo com o modelo que Jesus estabeleceu. Este texto também deixa subentendido que existe quem não governe bem. Isto é, aqueles que violam os princípios bíblicos de liderança, como a submissão mútua, o serviço e o exemplo.
Finalmente, em Tito 2:15, Paulo instrui Tito no sentido de repreender com “toda a autoridade”.
«Fala estas coisas, exorta e repreende com toda autoridade. Ninguém te despreze.»
O termo epitagé aqui traduzido como autoridade aparece mais seis vezes no Novo Testamento (Romanos 16:26; I Coríntios 7:6,25; II Coríntios 8:8; I Timóteo 1:1; Tito 1:3). Em todas estas ocorrências, é traduzido como mandamento ou mandado. Na carta a Tito foi traduzido por autoridade, tendo uma clara ligação à fonte de autoridade dos próprios mandamentos divinos. Portanto, por outras palavras, Tito deveria repreender com todo o mandamento de Deus. Assim, a palavra autoridade não se refere a alguma caraterística inerente a Tito, à sua função ou ofício, mas sim à própria Escritura enquanto mandamento divino. BARNES salienta o siginficado da expressão epitagé:
«O sentido aqui é que ele o deveria fazer decididamente, sem ambiguidade, sem compromisso, e sem reservas. Ele deveria declarar estas coisas não como sendo um conselho, mas como requisitos de Deus.»
A palavra autoridade aqui deriva diretamente do que ele deveria ensinar. Era, portanto, uma referência à autoridade inerente ao conteúdo transmitido e não ao transmissor.


3 – Submissão aos líderes
Mas será que a Bíblia não defende que o rebanho se deve submeter ao seu líder? Será que a igreja deve viver numa completa e absoluta anarquia? Em textos como o de Hebreus 13:17, fica evidente que o rebanho deve se submeter ao seu líder. Não há qualquer dúvida em relação a este facto, nem há qualquer benefício em não se submeter.
«Obedecei a vossos pastores, e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossas almas, como aqueles que hão de dar conta delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil.»
Há uma nuance nesta passagem que, por mais insignificante que pareça numa primeira análise, faz toda a diferença e é a de que esta passagem se dirige aos liderados e não ao líder. Logo, mesmo verificando-se como consequência da obediência a este mandamento, a existência de um grupo de pessoas submissas à sua liderança, não ordena, em momento algum, o exercício de autoridade dos pastores sobre o rebanho. Caso contrário, ou seja, se o texto bíblico afirmasse que os líderes tinham autoridade, seria desnecessário instar o rebanho a que se submetessem. Aliás, creio que a exortação para que haja submissão do rebanho em relação ao líder é, exatamente, porque estes não têm autoridade sua. Portanto, o mandamento não é para que a liderança exerça autoridade, mas para que os liderados tenham uma atitude de submissão. Assim sendo, a submissão que é devida por parte de quem é liderado, é um exercício livre, voluntário e consciente, em oposição a qualquer tipo de sujeição imposta de forma declarada ou velada, por parte do líder.
E ainda, se há diversas passagens que exortam a igreja a submeter-se aos seus líderes, outras tantas há que nos ordenam a submissão mútua, na qual, naturalmente, se incluem os líderes. Por exemplo,
«Sujeitando-vos uns aos outros no temor de Deus.» (Efésios 5:21)
«Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo.» (Filipenses 2:3)
Perante o mandamento de nos submetermos mutuamente e de considerarmos os outros superiores a nós próprios, fica anulada qualquer hierarquia, posição de autoridade ou ministério sobre outros. Estamos todos, consequentemente, ao mesmo nível, independentemente das nossas mais diversas funções, tarefas e responsabilidades.


4 – Diferentes do mundo
Pelo menos dois textos deixam claro que a vida na igreja, expressão visível do Reino de Deus, é absolutamente diferente da vida no mundo, no capítulo da liderança. Um deles encontra-se em Mateus 20:25-28 (texto paralelo em Marcos 10:42-43).
«Então Jesus, chamando-os para junto de si, disse: Bem sabeis que pelos príncipes dos gentios são estes dominados, e que os grandes exercem autoridade sobre eles. Não será assim entre vós; mas todo aquele que quiser entre vós fazer-se grande seja vosso serviçal; E, qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, seja vosso servo; Bem como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos.»
Perante a ânsia de alguns discípulos em virem a ocupar lugares de destaque no seu Reino, Jesus mostra que os modelos de liderança, com exercício de autoridade, deste mundo não se aplicam à igreja. Jesus afirma claramente: não será assim entre vós. No mundo secular existem modelos de liderança em que uns exercem autoridade sobre outros, mas entre os irmãos da igreja não deve ser assim. Jesus demarca-se, claramente, das lideranças autocráticas. E é necessário atender ao facto de que Jesus não está sequer a referir-se a abusos de autoridade que ocorriam entre os gentios. Ele está simplesmente a dizer que a forma organizativa de liderança com qualquer tipo de hierarquia não poderia, de forma alguma, existir entre os seus discípulos. Este não é só um problema das megaigrejas, cuja estrutura impõe estratégias de gestão com níveis hierárquicos, cadeias de comando e exercícios de autoridade. Este problema é transversal a todas as igrejas, mesmo nas pequenas, onde um líder que assuma uma posição de autoridade, ainda que com as melhores intenções, desobedece ao ensinamento de Jesus.
Também Pedro (I Pedro 5:2-3) é enfático em relação a este assunto.
«Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto; nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho.»
A particularidade de ter sido o impetuoso Pedro, por muitos identificado como o líder dos Apóstolos, a escrever estas palavras deveria fazer redobrar a nossa atenção. A liderança cristã não se faz pelo domínio, mas sim pelo exemplo. Alguns argumentarão que Pedro estaria simplesmente a condenar o domínio abusivo. No entanto, não existem elementos explícitos para esta interpretação. Uma melhor interpretação aponta no sentido de dizer que Pedro não está a condenar o domínio abusivo, mas, sim, a dizer que qualquer domínio é abusivo. A grande questão, neste ponto é que, se os líderes assumem posições de autoridade (mais ou menos explícitas), que exemplo estão a passar ao rebanho? Se o rebanho seguisse o exemplo do seu líder, no capítulo das atitudes demonstradas na liderança, qual seria o resultado? Que imagem estão os líderes a construir e a manter sobre o que é ser líder? Será que uma liderança que recorre ao exercício de autoridade está a dar o necessário exemplo de submissão ao rebanho?


5 – Posição ou função?
Em maior ou menor escala, a defesa da ideia de que os líderes cristãos têm autoridade, tem algumas consequências das quais não nos podemos desembaraçar. Com maior ou menor estratificação, a realidade é que onde existe autoridade ou alguma sua variante, existe, necessariamente, alguma forma de hierarquia, a qual contraria o propósito bíblico. Como consequência, a liderança deixa de ser uma função dentro do corpo que é a igreja, para passar a ser uma posição; deixa de ser algo que se faz com as pessoas e passa a ser algo que se faz sobre as pessoas. Este não é um mero pormenor vocabular, na medida em que expressa uma conceção ministerial que, certamente, irá descair em negociações de poder e jogos de manipulação, diametralmente oposta à cultura bíblica de liderança pelo serviço e exemplo.
«Ninguém despreze a tua mocidade; mas sê o exemplo dos fiéis, na palavra, no trato, no amor, no espírito, na fé, na pureza.» (I Timóteo 4:12)
«…em tudo te dá por exemplo de boas obras» (Tito 2:7)
«…mas servindo de exemplo ao rebanho.» (I Pedro 5:3)
É fácil, assim, compreender por que razão esta postura de autoridade da liderança redunde, em diversos contextos eclesiásticos, em situações de domínio abusivo, com traços ditatoriais, oligárquicos e prepotentes. E ainda mais grave, ostentando capas de santidade, zelo bíblico e ortodoxia, o que torna todo este tipo de sistema absolutamente perverso.
Só fará sentido considerar a liderança como uma posição, se a consideramos em termos horizontais, e não verticais. Por outras palavras, o posicionamento vertical implica níveis diferentes e a colocação de uns acima de outros. O posicionamento horizontal, por outro lado, pressupõe que estão todos ao mesmo nível, encontrando-se o líder simplesmente num lugar onde é facilmente visto, seguido e imitado.


6 – A Liderança enquanto exemplo
Na modalidade olímpica de remo, existem várias classes. Entre estas, existem algumas em que a embarcação leva remadores e um timoneiro. O timoneiro, em vez de remar, dá as ordens necessárias para que os outros remem e procura marcar o ritmo de forma a gerir eficazmente o desenrolar da corrida. Parece-me que muitas das lideranças com que nos deparamos atualmente, se assemelham a este modelo. De uma posição de superioridade, o líder emite orientações e direções para procurar gerir o rebanho da forma que entende ser a mais eficaz.
Num outro tipo de classe daquela modalidade, não existe timoneiro, só existem remadores. No entanto, mesmo assim, existe um líder. É o remador que fica na frente, à vista de todos. Ele está a remar e, desta forma a marcar o ritmo, servindo de exemplo e estímulo aos demais. Apesar de também estar a remar, ele tem a responsabilidade e a função de liderar.
Parece-me que o último exemplo, apesar das limitações, é bem mais parecido com o modelo de liderança que Cristo tem para a igreja.
Senão, vejamos, o paradigma da liderança cristã que nos foi deixado por Jesus que, ao lavar os pés dos seus discípulos, deixou patente que a liderança é serviço e exemplo, e não autoridade.
«Levantou-se da ceia, tirou o manto e, tomando uma toalha, cingiu-se. Depois deitou água na bacia e começou a lavar os pés aos discípulos, e a enxugar-lhos com a toalha com que estava cingido. (…) Ora, depois de lhes ter lavado os pés, tomou o manto, tornou a reclinar-se à mesa e perguntou-lhes: Entendeis o que vos tenho feito? Vós me chamais Mestre e Senhor; e dizeis bem, porque eu o sou. Ora, se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também. Em verdade, em verdade vos digo: Não é o servo maior do que o seu senhor, nem o enviado maior do que aquele que o enviou. Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as praticardes.» (João 13:4-17)
Aqui estava o Senhor de toda a autoridade, criador do Universo, curvado, em humilde serviço a todos os seus discípulos, inclusivamente ao rebelde e insubmisso Judas. E, depois, ensinando-os que, da mesma forma como os tinha acabado de servir, deveriam seguir o seu exemplo e servir os outros. Este é serviço genuíno, em submissão, como exemplo, em humildade, mesmo com a possibilidade de ser traído, mesmo sabendo que muitos dos que estão a ser servidos vão voltar as costas, mesmo sabendo que sempre existirão aqueles que ridicularizarão e marginalizarão os que lideram deste modo.
O Apóstolo Paulo, mesmo investido de autoridade apostólica, aponta para o seu exemplo, como devendo ser seguido
«Em tudo vos dei o exemplo de que assim trabalhando, é necessário socorrer os enfermos, recordando as palavras do Senhor Jesus, porquanto ele mesmo disse: Coisa mais bem-aventurada é dar do que receber.» (em Atos 20:35)
«Irmãos, sede meus imitadores, e atentai para aqueles que andam conforme o exemplo que tendes em nós.» (Filipenses 3:17)
Portanto, apesar de ter autoridade (a qual, esta sim, lhe havia sido delegada, pelo Senhor da igreja), o seu perfil de líder é fortemente caraterizado pelo exemplo. As suas exortações a Timóteo (I Timóteo 4:12) e a Tito (Tito 2:7) seguem esta mesma linha da liderança pelo exemplo.


A liderança cristã atual sofre de extrema necessidade de voltar, realmente, à simplicidade e humildade do Evangelho. É urgente recuperar os modelos bíblicos de liderança, antes que inúmeros rebanhos sucumbam à destruição semeada por modelos seculares de liderança aplicados à igreja, que se constituem como autênticas ferramentas de violência e abuso espiritual sobre aqueles a quem deveríamos estar a servir.
A liderança cristã, na igreja de Jesus, só pode ser exercida conforme o Senhor da igreja pretende, em serviço, em humildade, constituindo-se como exemplo do rebanho. Ele deixou claro que tal não deveria ser com recurso ao exercício de autoridade ou com qualquer outra variante eufemística de liderança sobre os outros. Afinal, ele é o único detentor de toda a autoridade, da qual não abdica, nem permite usurpação. Autoridade na igreja é uma prerrogativa única e exclusiva da pessoa de Jesus.
«… Foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra.» (Mateus 28:18)

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