02/08/2012

O ungido do Senhor


Esta expressão tem sido, frequentemente, mal empregada por líderes religiosos, dos mais variados quadrantes do cristianismo, os quais arrogam o título de «ungidos do Senhor». Normalmente, surge como forma de resposta a quem ousa questionar ou discordar, mesmo que de acordo com preceitos bíblicos, com algum aspeto da sua liderança; ou em momentos em que o líder pretende fazer prevalecer a sua posição ou opinião, em detrimento das demais; ou, até, como ferramenta de manipulação e chantagem sobre o rebanho.
Usando esta expressão e citando textos como o de 1 Samuel 26:4, em que David afirma, sobre Saul, “O Senhor me guarde de que eu faça tal coisa ao meu senhor, ao ungido do Senhor, que eu estenda a minha mão contra ele, pois é o ungido do Senhor”, de maneira prepotente, mas eficaz, conseguem levar a sua avante.

No Antigo Testamento, a unção com os melhores óleos, por vezes, aromatizados com ervas, tinha um significado especial, normalmente associado à separação - santificação, de pessoas ou de objetos, para um serviço importante.

Saul, o primeiro rei de Israel, fazia parte, então, de um dos três grupos de homens, no Antigo Testamento, especialmente escolhidos por Deus e ungidos para os seus ofícios: reis, sacerdotes e profetas.

A mesma expressão foi aplicada a David, o rei que lhe sucedeu: “Os reis da terra se levantam e os governos consultam juntamente contra o Senhor e contra o seu ungido” (Salmo 2:2), neste caso, numa clara referência profética, a qual viria a cumprir-se na pessoa de Jesus.

Esta expressão foi, também, aplicada ao rei persa, Ciro, que foi comissionado por Deus para libertar o povo judeu: “Assim diz o Senhor ao seu ungido, a Ciro, a quem tomo pela mão direita, para abater as nações diante de sua face, e descingir os lombos dos reis, para abrir diante dele as portas, e as portas não se fecharão” (Isaías 45:1). Neste acontecimento, o rei Ciro foi um tipo profético de Cristo ao exercer o simbólico papel de libertador.

Os sacerdotes, por seu turno, eram ungidos para exercerem o ministério relacionado com a entrega de sacrifícios no templo: “E o sacerdote, que for ungido, e que for sagrado, para administrar o sacerdócio, no lugar de seu pai, fará a expiação, havendo vestido as vestes de linho, as vestes santas” (Levítico 16:32). Toda a atividade do sacerdote, desde a sua unção, preparação, indumentária e rituais, aludia a Jesus Cristo, o qual viria a cumprir em si mesmo o sacrifício último pelos nossos pecados e em quem temos “um grande Sumo Sacerdote (…) que penetrou nos céus” (Hebreus 4:13).

Isaías afirma que havia sido ungido por Deus: "O espírito do Senhor Deus está sobre mim; porque o Senhor me ungiu, para pregar boas novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos" Isaías 61:1. Apesar deste texto ter um forte cariz profético, com o seu cumprimento na pessoa de Jesus, não deixa de informar que Isaías, enquanto profeta de Deus, também havia sido ungido.

Ainda no Antigo Testamento, a designação de «ungido» é estendida por David a todos os membros do povo de Deus: “Quando eram poucos homens em número, sim, muito poucos, e estrangeiros nela, quando andavam de nação em nação, e de um reino para outro povo, a ninguém permitiu que os oprimisse, e por amor deles repreendeu reis, dizendo: Não toqueis os meus ungidos, e aos meus profetas não façais mal” (Salmos 105:12-15; 1 Crónicas 16:19-22). Também Habacuque (3:13), profeticamente, aponta para o sacerdócio universal dos crentes, ao designar o povo de Deus de ungidos: “Tu saíste para salvação do teu povo, para salvação dos teus ungidos…”.

Portanto, se os três ofícios do Antigo Testamento foram plenamente cumpridos em Cristo - o Rei que estabeleceu para sempre o trono de David, o Sumo Sacerdote eterno e o grande Profeta de Deus ao homem, no Novo Testamento, é clara a aplicação desta expressão à pessoa de Jesus como O Ungido do Senhor: “O Espírito do Senhor é sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-me a curar os quebrantados do coração” (Lucas 4:18); e “Levantaram-se os reis da terra, e os príncipes se ajuntaram à uma, contra o Senhor e contra o seu Ungido” (Atos 4:26).

Paulo afirma aos coríntios que ele e os que se encontravam com ele (pelo menos, Timóteo) haviam sido ungidos por Deus: “Mas o que nos confirma convosco em Cristo, e o que nos ungiu, é Deus” (1 Coríntios 1:21). Da leitura deste texto poderíamos ser inclinados a pensar que os líderes espirituais seriam os atuais ungidos do Senhor (Paulo era apóstolo e o Timóteo era pastor). Mas, para uma boa exegese bíblica, é necessário considerar todos os textos relacionados.

João, numa carta que foi dirigida às igrejas, lança uma luz extremamente importante sobre este assunto: “Ora, vós tendes a unção da parte do Santo, e todos tendes conhecimento (...) E a unção que vós recebestes dele, fica em vós, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas, como a sua unção vos ensina todas as coisas, e é verdadeira, e não é mentira, como ela vos ensinou, assim nele permanecereis” (I João 2:20,27). De acordo com este texto fica claro que, no contexto neotestamentário (em cuja extensão vivemos), ser ungido de Deus não é uma prerrogativa exclusiva de alguns, mas uma bênção estendida a todos os crentes no Senhor Jesus.

Pedro também não deixa margem para dúvidas ao referir-se à totalidade dos crentes como o «sacerdócio real», estabelecendo um paralelo com os equivalentes personagens (sacerdotes e reis) do Antigo Testamento: “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as grandezas daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; vós que outrora nem éreis povo, e agora sois de Deus; vós que não tínheis alcançado misericórdia, e agora a tendes alcançado” (1 Pedro 2:9,10).

Por outras palavras, se no Antigo Testamento esta expressão era, fundamentalmente, aplicada a sacerdotes, reis e profetas, no Novo Testamento não restam dúvidas que todos os que se arrependeram dos seus pecados e depositaram a sua fé em Jesus são ungidos do Senhor: “Mas aquele que nos confirma convosco em Cristo, e nos ungiu, é Deus, o qual também nos selou e nos deu como penhor o Espírito em nossos corações” (2 Coríntios 1:21,22).

Existem, portanto, diversos problemas teológicos com a aplicação da expressão «o ungido do Senhor» aos líderes da igreja. Dada a extensão da sua discussão, não me deterei sobre todos eles. Destaco somente dois.

Em primeiro lugar, a maior parte dos líderes religiosos que fazem uso desta expressão em relação a si próprios, assumem o que, comummente, designam de «posição de autoridade», à qual, a utilização da fórmula «ungido do Senhor» confere um tipo especial de crédito e poder. No entanto, a liderança cristã, bíblica, não é uma posição, nem é de autoridade (Mateus 20:25-28; 1 Pedro 5:2-3), mas sim uma função e um serviço que se destinam a ser imitados (João 13:20; 1 Timóteo 4:12).

Em segundo lugar, existe uma diferença abissal entre dizer-se «um ungido do Senhor» e «o ungido do Senhor». A diferença entre o artigo indefinido e o definido marca um contraste como que da noite para o dia. Todos os crentes, incluindo os líderes, podem afirmar-se como sendo «um ungido do Senhor», porque a Bíblia mostra que Deus nos ungiu a todos ao derramar o seu Espírito sobre a igreja (Atos 2:17,18,33; Tito 3:4-6). Mas o título de «o ungido do Senhor», de acordo com os textos acima transcritos, só se pode aplicar devidamente à pessoa de Jesus.

Assim sendo, qualquer que se arrogue um título e uma posição que pertencem exclusivamente a Jesus, não faz mais do que colocar-se a si mesmo no Seu lugar. E, para esses, a Bíblia tem outra designação…

23/07/2012

Salvador ou Senhor?

"Porque foi para isto que morreu Cristo, e ressurgiu, e tornou a viver, para ser Senhor, tanto dos mortos, como dos vivos." Romanos 14:9

Frequentemente, ouvimos dizer que Jesus morreu para nos salvar. De acordo com o registo bíblico, esta afirmação é verdadeira. De facto, ao morrer na cruz sem ter cometido qualquer pecado (Hebreus 4:15), Jesus pagou uma dívida que não era sua (Romanos 3:23). Pode-se dizer que Jesus adquiriu, assim, um "crédito" que fica ao dispor de todo aquele que depositar a sua fé nele (Romanos 3:26). Ou seja, a justiça que Jesus conquistou na cruz, é imputada aos pecadores culpados que creem nele (Romanos 4:23-25). Esta imputação é identificada na Bíblia como sendo a justificação (Romanos 3:24). Isto é, pessoas culpadas (por causa dos seus pecados) que mereciam a morte (afastamento eterno de Deus) passam a ser vistas, pelo Juiz, como justificadas, mediante o pagamento efetuado por Jesus, e deixam de estar condenadas (João 5:24).

Porém, esta explicação jurídica não esgota a dimensão do que Jesus realizou na cruz. De acordo com o texto de Romanos 14:9, o objetivo de Jesus, ao morrer e ressuscitar, foi o de ser o Senhor de todos. A salvação que Jesus conquistou na cruz, portanto, não pode ser dissociada do senhorio de Cristo.

Existem várias ilustrações que procuram ajudar a compreender o milagre da salvação que Jesus nos confere. Uma das mais frequentes será, porventura, a do nadador-salvador que, perante a situação de uma pessoa em perigo no mar, prestes a sucumbir ao vigor das ondas, prontamente a socorre. Esta ilustração enfatiza o desespero de alguém prestes a morrer afogado, estabelecendo paralelismo com o nosso estado desesperante de morte espiritual por causa dos nossos pecados. No entanto, a imagem peca por defeito (como, aliás, todas as que conheço) ao traduzir a noção de que ser salvo é, simplesmente, ser retirado de uma situação de perigo iminente para uma situação de segurança.

Pessoalmente, prefiro a ilustração do comprador de escravos. Nesta, somos representados pelos escravos comprados por Jesus que nos liberta de uma situação de escravidão e que, por ter pago o preço da nossa libertação (I Coríntios 6:20; I Pedro 1:18-19), passa a ser o nosso novo Dono e Senhor. Apesar das limitações que também esta ilustração apresenta, parece-me que perspetiva melhor a mudança drástica que ocorre na nossa condição espiritual: a salvação não é uma mera libertação de uma situação de perigo; é uma mudança completa e absoluta de propriedade (Colossenses 1:13). Aliás, diria que só somos salvos se Jesus passar a ser o nosso Senhor! É o facto de nos tornarmos sua propriedade que nos garante, não só a salvação, como também, a própria preservação dessa salvação (João 10:28). Ou seja, o sacrifício que Jesus realizou na cruz não é uma simples bóia de salvação, mas é o pagamento através do qual ele adquire a vida daqueles que nele depositam fé.

Em alguns ambientes religiosos, assistimos à propagação da mensagem de salvação em Jesus, como se tratasse simplesmente de alguma coisa boa que precisamos receber. Este ensino não está errado, só por si. Mas não contém toda a verdade. Talvez com a preocupação de simplificar a apresentação da salvação, para promover uma maior aceitação, corre-se o risco de diluir o próprio Evangelho. O grande perigo é que um Evangelho diluído, rapidamente transforma-se noutro evangelho, distinto do que é apresentado na Bíblia e ficamos perante algumas inquietantes questões:
  • Quem responde positivamente a um evangelho assim, será que entende o que está a fazer?
  • Será que entende que está a entregar a sua vida a Jesus?
  • E se não entende que é isso que está a acontecer, será que, efetivamente, isso está a acontecer?
  • Será que é possível aceitar Jesus como Salvador quando não se tem a mínima ideia de que ele passa a ser o dono da nossa vida?
  • Será que é possível aceitá-lo somente como Salvador e, só posteriormente, aceitá-lo como Senhor?
Fundamentalmente, julgo que não nos podemos permitir ao facilitismo de apresentar a salvação meramente como algo que se recebe (a tal libertação de uma situação de perigo). Antes, julgo ser muito mais consubstanciado pelo registo bíblico a apresentação da salvação como o resultado da entrega da nossa vida a Jesus, reconhecendo-o como Senhor e Salvador: "se com a tua boca confessares Jesus como Senhor, e em seu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo" (Romanos 10:9). Paulo e Silas apresentam a salvação ao carcereiro de Filipes nestes termos: "E eles disseram: Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa." (Atos 16:31). Igualmente, textos como João 1:12, este referindo-se ao ato de receber Jesus, não podem ser dissociados do ensino de que receber Jesus não é o mesmo que receber a ajuda oportuna de um nadador-salvador, mas sim, de um Senhor e Rei que irá exercer a sua autoridade na nossa vida (Mateus 6:10).

A apresentação da mensagem da salvação não pode ser comprometida por qualquer artifício que oculte, diminua ou dilua uma destas duas dimensões de Jesus: Salvador e Senhor. De acordo com o registo bíblico, estas duas facetas não são sequer desagregáveis. Nem podemos franquear a ideia de que a sua aceitação pode ser opcional ou temporalmente desfasada.

SALVAÇÃO é a entrega incondicional da nossa vida ao Único que, não só adquiriu o crédito necessário para o pagamento integral da nossa dívida, como tem todo o poder e autoridade para a preservação da nossa salvação. É, portanto, a aceitação de Jesus não só como Salvador, mas como o Senhor da nossa vida.

30/06/2012

Nem tudo o que vem à rede é peixe

Nem tudo o que vem à rede é peixe. Quando se vai à pesca, também vêm à rede botas velhas, latas enferrujadas, sacos de plástico e outros pedaços de lixo inútil. Os oceanos estão cada vez mais poluídos, chegando-se ao extremo impensável de existirem autênticas ilhas de plástico à deriva no mar. A fauna marítima está a ressentir-se destas agressões ecológicas, com impactos diretos e indiretos em todo o ecossistema. E é cada vez mais verdade que nem tudo o que vem à rede é peixe. 

Sendo assolados pelas mais variadas tendências doutrinárias, do ponto de vista do ensino bíblico, o cenário é semelhante. A crescente propensão consumista e imediatista da sociedade atual é verdadeiro combustível para o surgimento e proliferação de todo o tipo e corrente de ensino. Basta abrir a janela da internet, para teremos acesso às diversas modas e tendências espirituais, convenientemente adaptadas aos respetivos nichos de mercado. Há os místicos, os da prosperidade, os ultraconservadores, os liberais, os dos milagres e curas, os das visões e profecias, os das serpentes, e há, também, os que integram vários destes elementos. Perfilam-se, perante os nossos olhos as ilhas de plástico e lixo pseudoteológico. Tem se tornado tanto mais fácil escolher uma religião ou doutrina à nossa medida, como têm abundado consumidores para cada uma das ofertas!

Mas cuidado! Em cada uma destas variantes religiosas, vamos detetar vestígios da verdade. A mentira não seria tão facilmente aceite, se não tivesse, pelo menos, um cheirinho de verdade. A grande dificuldade é que, com o ditadura do relativismo pós-moderno, perdeu-se a noção de que existe verdade, ou melhor, de que existe uma verdade. Conceitos como tolerância, aceitação e respeito são arremessados, como areia para os nossos olhos, para impor a impossibilidade de chegarmos ao conhecimento da verdade, porque ela é, dizem, relativa e subjetiva. Cada um terá a sua, conforme o gosto e as circunstâncias… E, no meio de todo esse caos, grassa toda a sorte de desvio e mentira.

As pessoas têm aprendido a procurar alguma coisa para as suas vidas; alguma coisa que resolva os seus problemas; alguma coisa que resulte; de preferência, alguma coisa que cause um arrepio. Não importa se é só um remendo, solução temporária, uma ilusão de solução ou, mesmo, uma corrente de ar! O que importa é que resulte, ou melhor: que a pessoa sinta que resulta.

Em vez de conformarem a sua vida à Verdade que é Jesus, desgastam-se e consomem-se em esforços inúteis para encontrar soluções avulsas, que na melhor das hipóteses são meros placebos habilmente vendidos no mercado da religião.

Nunca será excessiva a atitude dos habitantes de Beréia perante Paulo e Barnabé. "Ora, estes foram mais nobres (…) porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim" (Atos 17:11). Verificaram, nas Escrituras, se o discurso de Paulo fazia sentido. Verificaram se o que ele dizia correspondia ao texto sagrado, se estava alinhado com a verdade. É óbvio que esse comportamento pressupõe duas coisas fundamentais: 1 – crer que o texto bíblico é verdadeiro e, 2 – conhecer o texto bíblico.

Não é preciso saber com pormenor todos os erros que aparecem acerca das Escrituras, nem sequer com o pretexto de saber contestá-los – tal tarefa depressa se revelaria impraticável. A melhor forma de nos exercitarmos a identificar o erro é aprendendo a conhecer muito bem o que é certo! Seguros da verdade, não deixaremos nos levar por autênticos disparates, por melhor camuflados que se encontrem. Aprendemos a estar atentos a todos os sinais de alarme que soam sempre que alguma coisa, no mínimo, pareça não bater certo.

Entre o que vamos recolhendo na nossa rede, vem peixe. Mas vem, também, muito lixo. Sigamos o exemplo dos bereianos, para não darmos por nós a deliciar-nos com uma lata panada ou a uma bota grelhada.

PS: E se há um determinado lugar onde sempre que lançamos a rede apanhamos mais lixo que peixe, porque não irmos lançar a rede noutras águas, mais limpas?

24/06/2012

O crescimento do Reino

"Outra parábola lhes propôs, dizendo: O reino dos céus é semelhante ao grão de mostarda que o homem, pegando nele, semeou no seu campo; o qual é, realmente, a menor de todas as sementes; mas, crescendo, é a maior das plantas, e faz-se uma árvore, de sorte que vêm as aves do céu, e se aninham nos seus ramos" (Mateus 13:31-32).

No modelo de oração ensinado por Jesus, somos instruídos a pedir que o seu reino venha até nós. Também durante o Sermão do Monte, Jesus orienta-nos a buscarmos primeiro o seu reino e justiça. Portanto, não há sombra de dúvida que este reino é algo absolutamente fundamental para a nossa existência. Mas, em concreto, de que se trata?

Podemos dizer que o reino de Deus ou o reino dos céus é o domínio de Jesus, o Rei, na nossa vida. Portanto, receber o seu reino é convidá-lo a exercer total autoridade sobre nós. De que forma é que isto acontece? Será através de um esforço consciente para sermos melhores do que temos sido? Será através da adoção e seguimento de um sistema religioso? Será através de algum tipo exercício místico de meditação?

A Bíblia dá a resposta quando, em João 1:12, aponta para o momento exato em que o reino de Jesus chega à nossa vida: é necessário recebê-lo. Receber este reino é uma atitude de rendição. Não receber é mantermo-nos subjugados e à mercê de um outro reino, o das trevas (Colossenses 1:13). Este constitui uma ameaça verdadeiramente destruidora, da qual seremos libertos no momento em que reconhecermos a nossa própria necessidade e permitirmos que o reino de Deus entre nas nossas vidas. Tudo isto acontece numa dimensão espiritual (Lucas 17:20-21).

Iniciado o reinado de Jesus nas nossas vidas, é altura de começar a crescer. Como o texto acima transcrito indica, apesar do seu início ser tão pequeno como uma semente, espera-se, naturalmente, que o seu crescimento aconteça. Se o solo da nossa vida for fértil e permitirmos que a planta cresça, é expetável que isso aconteça. Este crescimento significa, entre outras coisas, que vamos permitindo um crescente domínio de Jesus sobre cada área da nossa vida. Este domínio não existe para ficar limitado ou circunscrito a uma área, chamada religiosa, da nossa vida; não é para ser colocado em prática somente em momentos e locais chamados sagrados ou santos. Este domínio tem como propósito o controlo absoluto de toda a nossa vida, em todas as circunstâncias: no trabalho, na escola, nos tempos livres, nos pensamentos, nas ações, nas palavras, nas atitudes.

A ilustração do desenvolvimento de uma semente até se tornar numa árvore, aponta para um propósito progressivo da autoridade de Jesus sobre cada aspeto da nossa existência. Quando pensamos neste exemplo, percebemos que existe uma parte escondida, o sistema radicular, o que nos leva à conclusão de que há um crescimento que acontece no nosso íntimo, em comunhão com Deus e com a sua Palavra, através da qual extraímos o ensino vital. Este ensino tem, pela ação sobrenatural do Espírito Santo, um impacto profundo sobre as nossas convicções, pressupostos e princípios. Começando de forma invisível, no nosso interior, todos os nossos valores e prioridades são substancialmente modificados e reformuladas as nossas noções de ética e moralidade. É o novo nascimento, sobre o qual Jesus ensinou noutro momento, que nos permite fazer parte do reino de Deus (João 3:3).

Mas, tal como acontece com a árvore, espera-se que esse crescimento germine em algo visível. Ou seja, de uma semente, necessariamente, resultarão, para além da raiz, caule, ramos, folhagem e, naturalmente, fruto. Quando esta componente visível não existe, é legítimo questionarmo-nos se as raízes existirão, de facto.

Constatamos isso na vida de muitos que convivem com outros membros do reino, ouvem a mesma Palavra, usam a mesma linguagem, mas, mesmo assim, parecem não produzir quaisquer evidências de que tal reino exista. Mais, conheçamos melhor a vida destas pessoas longe do local de culto ou das reuniões da igreja e encontraremos evidências incompatíveis com os princípios do reino.

Quando estamos no nosso local de trabalho, nos nossos tempos livres, na nossa casa, com a nossa família ou a sós, que frutos produzimos? Que evidências do reino existem na nossa vida? Pedir que o seu reino venha a nós é dar-lhe a máxima prioridade; é colocarmo-nos em absoluta submissão, como fiéis súbditos, às ordens do Rei; é permitir que os interesses, objetivos e caminhos do reino passem a ser os nossos; é, consequentemente, abdicar dos nossos alvos, direitos, vontades, desejos, interesses, buscando “primeiro o reino de Deus e sua justiça” (Mateus 6:33).

Já pertences a este reino? És submisso ao Rei?

19/06/2012

A igreja Para Além Dos Limites


Há quase 20 anos atrás, numa aula de Eclesiologia (doutrina da igreja), o professor apresentou uma fotografia de si próprio em que, qual contorcionista de circo, fazia passar as pernas por cima da cabeça e perguntou, “acreditam que eu consigo fazer isto?” Depois da gargalhada geral, prosseguiu para o que considerei ser um dos mais importantes desafios que me foram colocados durante o meu tempo no Seminário: considerar A IGREJA PARA ALÉM DOS LIMITES.

No decurso da história da igreja (e de cada igreja), construíram-se espaços e conceberam-se estruturas litúrgicas e organizacionais que, adequadamente, possibilitaram e reforçaram o desenvolvimento da sua missão. Com o decorrer do tempo, porém, sedimentaram-se organizações, instalaram-se hábitos, acomodaram-se pessoas e aquilo que antes era inovador tornou-se, gradativamente, numa tradição. Em algumas situações, o meio tornou-se o fim.

A igreja vê a sua vida, assim, limitada por elementos que, de forma quase impercetível, adquiriram estatuto de imutabilidade, oferecendo rigidez e obstáculos onde deviam cumprir o seu primeiro objetivo: auxiliar e potenciar.

Urge, portanto, um esforço consciente de transformação da mente, no sentido de recuperar uma vivência para além dos limites, de acordo com o padrão bíblico.


O TEMPLO.

A nossa sociedade está habituada a ver a igreja como o templo. Fruto da tradição religiosa, o edifício é identificado com a igreja e vice-versa. Exemplo disso é a expressão “Vamos à igreja!” quando, em bom rigor, queremos dizer, “Vamos às instalações da igreja”.

Mais do que uma mera desarrumação de conceitos, em muitas igrejas, o templo (instalações) é, mesmo, sobrevalorizado. Olhemos para os orçamentos anuais das nossas igrejas e analisemos a percentagem dos nossos recursos que é gasta em manutenção e melhorias das instalações, em comparação com o que gastamos, por exemplo, em Missões ou no atendimento de necessidades de pessoas.

Não estou com isto a dizer que é errado ter templos ou que não devemos cuidar da sua manutenção. Tenho tido o privilégio de beneficiar de ótimas instalações, resultado de investimento feito no passado, e pelas quais dou graças a Deus. Todavia, é importante manter um estado de vigilância contra a tendência natural de ver no edifício mais do que o que ele realmente é – um recurso. Este perigo leva, facilmente, a igreja a centrar a sua atenção em aspetos materiais da sua existência em detrimento de outros bem mais importantes.

Considero preocupante a forma como as pessoas se entusiasmam e mobilizam quando há obras, em contraste com outros momentos e assuntos como evangelismo e missões, estudo bíblico e, até mesmo, a oração. Quando isso acontece, estamos a permitir que os aspetos materiais, físicos e visíveis se sobreponham ao espiritual. A igreja desenvolve, então, uma visão deturpada da sua própria existência, limitada ao seu espaço físico, ao seu edifício.

Ver a igreja para além dos limites do templo, é perceber que não somos igreja somente quando estamos naquele espaço. Continuamos a ser igreja nos nossos lares, nos nossos trabalhos, nas nossas escolas e tempos livres. Era assim que viviam os cristãos primitivos, quando ainda não existiam templos cristãos. Viviam a sua fé, em cada momento, em cada espaço, em cada circunstância.

Por vezes, questiono-me sobre o papel que teve o imperador Constantino, ao pegar no cristianismo, esse movimento vibrante que permeava toda a sociedade, e confiná-lo aos templos, hoje e então, autênticos "buracos negros" de recursos financeiros. Mantenhamos em mente que, quando Senhor avaliar as nossas obras, provavelmente não terá como prioridade a análise do nosso zelo para com paredes, tijolos ou mobília, mas sim para com pessoas, vidas. Nenhuma igreja sobrevive sem estas, mas passa muito bem sem aquelas.

A questão é, hoje, a mesma que Estêvão, corajosamente, colocou aos seus executores: o Altíssimo não habita em templos feitos por mãos de homens (Atos 7:48).

Chegamos a aplicar desacertadamente textos como o de Eclesiastes 5:1 para ensinar uma espécie de reverência ao local físico, quando o ensino bíblico em I Timóteo 3:15 é claro: a casa de Deus é a igreja (pessoas).

Tenhamos a sabedoria de usar as instalações para a glória de Deus, como ponto de encontro e como recurso, mas nunca como espaço limitador da vida cristã, aprendendo a ser igreja para além dos limites do templo.


O CULTO.

O culto é um momento muito importante da vida da igreja, em que esta se reúne para adorar, aprender e interceder em conjunto. Este não é o momento de ser igreja. É o momento de celebrar ser igreja. O momento de ser igreja é todo o momento da nossa vida.

Por força da tradição religiosa do nosso país, fomos habituados a distinguir os momentos sagrados dos profanos, espirituais dos seculares. Distinguir o momento do culto como momento sagrado e espiritual na nossa vida reduz a vivência do cristianismo a um só momento e cria a ilusão do dever cumprido pela simples presença no acto de culto.

Poucas coisas são mais redutoras da vida cristã. Infelizmente, na mente de muitos membros das nossas igrejas, ser igreja é participar no culto. É como se, ao cumprirmos esse dever, estivéssemos a creditar a conta que temos para com Deus. Nada poderia ser mais distante da realidade. Deus pretende que a vivência cristã da nossa fé seja integrada e integral, isto é, em todas as áreas e momentos, bem como de forma completa e sem limitações.

Depois, há toda a questão do modo como os cultos decorrem, de acordo com uma liturgia estabelecida na tradição e cujas modificações acontecem com um desfasamento importante relativamente ao momento em que se impunham. Veja-se, a título de exemplo, a introdução de instrumentos musicais no culto, ao longo da história. Permitir que os momentos do culto estejam culturalmente contextualizados não é permitir que o mundo entre na igreja. Em primeiro lugar, porque, como já estabelecemos, a igreja não é o templo. Depois, porque o mundo não é o mesmo que os objetos. O mundo não deve entrar na igreja, na medida em que o cristão não deve permitir que os comportamentos, valores e princípios mundanos façam parte da sua vida. Por outro lado, a utilização de instrumentos musicais variados, novas tecnologias, dinâmicas inovadoras e a utilização de recursos que ajudem a criar um ambiente acolhedor não são cedências ao mundanismo, mas sim avanços contextualizados para melhor transmitir Deus e a Sua Palavra às pessoas do nosso tempo. Porque não promover um saudável desprendimento de ritualismo e aplicar os princípios de espontaneidade e participação de I Coríntios 14:26-ss, os quais não têm que ser, de modo algum, sinónimos de desordem?

Fundamentalmente, a igreja precisa entender a sua existência para além da realização de cultos, celebrações, reuniões ou eventos. A igreja não é um evento ou momento. É uma vivência integral e integrada, para além dos limites do culto.


O DOMINGO.

Apesar de se falar muito sobre o domingo como o dia do Senhor, parece-me que esta distinção vem acrescentar à tendência de estabelecer espaços sagrados e profanos na nossa vida. Não temos base bíblica para chamar ao domingo o dia do Senhor (esta expressão, no Novo Testamento normalmente está associada à vinda de Jesus e não ao primeiro dia da semana). Pelo contrário, as Escrituras ensinam-nos que devemos considerar todos os dias como dias do Senhor. A nossa própria vida é sagrada, apesar de ser vivida num mundo secular.

Se constituirmos o domingo como “O” dia do Senhor, resta-nos, naturalmente, a pergunta: de quem são todos os outros dias da semana? O ensino de que devemos separar um dia para o Senhor passa a ideia enganosa de que os outros dias são nossos, para fazermos deles o que quisermos.

Paulo defende em Romanos 14:5 que não deve haver distinção relevante entre dias. Além disso, lemos no livro de Atos que os cristãos primitivos reuniam-se todos os dias. Naturalmente, isto não significa que, para sermos igreja, temos que nos reunir todos os dias. O contexto político, social e cultural determina grandemente a nossa vivência em igreja, como determinou a vivência da igreja primitiva. Contudo, ser igreja será, sempre, mais do que reunir num determinado dia ou num determinado local.

Suspeito que a atenção dada hoje ao domingo seja, em muito, semelhante ao zelo que os fariseus tinham para com o sábado. Não podemos limitar a vida da igreja a um dia da semana, através da sobrevalorização de um dia, em detrimento dos outros. Poderão dizer: “Mas as pessoas não vivem a sua fé em todos os dias de forma integral. Por isso, pelo menos que separem um dia na semana, para adorar a Deus.” Não me parece que o nosso Deus seja um Deus de “pelo menos”. Deus espera que a nossa entrega seja integral. Ensinar ou sustentar outra coisa menos do que isso é enganador e não honra as Escrituras. Todos, os dias são do e para o Senhor! Ser igreja é entender que, em todos os dias, vivemos a nossa fé e existimos enquanto corpo de Jesus, para além dos limites do domingo.


O CLERO.

Deus coloca os pastores e líderes nas igrejas (Efésios 4:11). Fá-lo porque o seu papel de liderança na igreja é essencial, pelo que o contrário não é biblicamente defensável, nem desejável. Contudo, é necessário que a igreja entenda que precisa existir para além do seu clero e que não se é igreja apenas quando o pastor está presente. Se é certo que os pastores são importantes catalisadores da vivência e desenvolvimento da igreja, também é certo que, por vezes, desenvolve-se uma castradora e doentia dependência dos mesmos, de tal forma que a igreja fica à deriva na sua ausência. Naturalmente, esta tendência é originária num desvio do foco que deve ser colocado em Jesus, como o Pastor da igreja.

Acredito que, com a melhor das intenções, os pastores e líderes acabam por centralizar em si mesmos uma série de atribuições e funções não lhes foram necessariamente atribuídas, mas sim à igreja. Por exemplo, será que uma igreja só pode realizar a Ceia do Senhor, se a mesma for dirigida por um pastor? Ou será que os batismos só podem ser realizados por pastores? A resposta bíblica a estas duas questões é não. Ambas estas ordenanças foram atribuídas à igreja e não ao ministério pastoral.

É por isso que, apesar de não considerar a designação “clero” como biblicamente adequada à igreja, aplico-a neste contexto. Porque temos, erroneamente, projetado para os nossos pastores um papel sacerdotal, quando, de acordo com o Novo Testamento (I Pedro 2:5,9), todos os crentes são sacerdotes perante Deus, não existindo distinção entre clero e leigos.

De uma forma mais abrangente, a função pastoral não é realizar o ministério da igreja, mas sim ajudar e capacitar todos para o exercício dos seus dons e ministérios na igreja (Efésios 4:12). Esta perspetiva, fundamentada nas Escrituras, vai mais para além da tendência centralizadora a que por vezes assistimos, pois potencia uma vivência em igreja, na qual todos poderão estar ativamente envolvidos.

Os pastores e líderes têm, portanto, a responsabilidade de promover o desenvolvimento dos dons, para que toda a igreja possa desenvolver os diversos ministérios em dependência de Deus e não da função pastoral, para além dos limites do clero.


Termino com o contundente desafio de Paulo: "E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus" (Romanos 12:2), na expetativa de que sejamos motivados a uma verdadeira transformação e renovação da nossa maneira de pensar em relação à igreja.

17/06/2012

Conhecer a Sua voz

"E, quando tira para fora as suas ovelhas, vai adiante delas, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz. Mas de modo nenhum seguirão o estranho, antes fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos." João 10:4-5
 
Quando um pastor chama as suas ovelhas, elas conhecem a sua voz e seguem-no, mesmo quando se encontram rodeadas por ovelhas pertencentes a outro rebanho. Por outro lado, as ovelhas que não pertencem a determinado pastor, não reconhecem a sua voz e não o seguem. A palavra chave é "conhecer"! A garantia de que estamos a seguir o caminho que Ele pretende, vem do conhecimento que temos da Sua voz.

Como ouvir e reconhecer a sua voz? Será através de sinais, circunstâncias ou até mesmo emoções, sentimentos e sensações? A Bíblia aponta noutra direção. A única forma segura de ouvir e conhecer a Sua voz, para saber em que caminho seguir, é através da leitura do que ficou registado nas Escrituras. O coração é enganador, os sentimentos flutuam, as circunstâncias iludem, os sinais podem ludibriar, mas a Palavra de Deus é firme, segura e eficaz!

O texto de João mostra que nem nos é requerido conhecer as outras vozes, doutrinas e ensinos, para os rejeitarmos. Basta não reconhecê-los como vindo das Escrituras, para não os seguir. Não é preciso conhecer todas as notas falsas, nem todas as possibilidade de falsificação. Basta conhecer bem as verdadeiras! Conheçamos bem a Palavra de Deus, de forma a podermos identificar a Sua voz e segui-Lo somente.
, quando tira para fora as suas ovelhas, vai adiante delas, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz.

Mas de modo nenhum seguirão o estranho, antes fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos.
João 10:4-5

08/06/2012

Ser cristão...

Ser cristão é mais do que ser religioso, católico ou civilizado. É mais do que uma mera e educada declaração cultural que parece identificar alguns povos do mundo ocidental. É viver um compromisso sério e fundamentado na pessoa de Jesus. É aprender com ele e viver de acordo com os seus ensinos integrais.

Mas, para ser cristão, é preciso tornar-se cristão, em primeiro lugar. Nascer numa família cristã ou num país que se diz cristão não é suficiente para o ser. O primeiro passo tem que ser uma decisão pessoal e consciente. E esta decisão não é um exercício meramente cognitivo. Não basta saber coisas acerca de Jesus. É preciso existir uma entrega pessoal. A Bíblia chama isso de fé. Não só saber que Jesus é o Salvador e Senhor, mais do que um filósofo e homem bom, mas exercer uma fé que nos leva a uma entrega completa e incondicional. Imaginem um miúdo em cima de um muro e o pai, cá em baixo, a dizer: “Salta, eu apanho-te!”. Saltar é fé. Sem este momento de decisão, não há cristianismo. Sem entrega da nossa vida a Ele, não somos dele ("Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome;" João 1:12). Com entrega, por outro lado, abdicamos dos direitos que temos sobre a nossa vida, para deixar que Ele seja, de facto, o Senhor, o Dono, a Autoridade das nossas vidas e, consequentemente, o nosso Salvador.

Os cristãos receberam, pela primeira vez esta designação, em Antioquia, não porque fosse um elogio à sua urbanidade, mas como forma de desprezo e escárnio, tal era a forma como falavam desse Cristo e procuravam viver de acordo com os seus ensinos. Como nos distanciámos disto! Habituámo-nos e acomodámo-nos a uma designação cultural que mais parece hereditária e não sentimos qualquer necessidade de conformarmos a nossa vivência aos ensinos daquele que afirmamos seguir.

O cristianismo integral implica auto-negação ("Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me." Lucas 9:23), obediência ("Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando." João 15:14), sacrifício ("Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos." João 15:13), arrependimento ("Desde então começou Jesus a pregar, e a dizer: Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus." Mateus 4:17), perdão ("Senhor, até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete? Jesus lhe disse: Não te digo que até sete; mas, até setenta vezes sete." Mateus 18:21-22), pacificação ("Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus;" Mateus 5:9), pureza ("Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus;" Mateus 5:8), humildade ("Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra;" Mateus 5:5), amor ("Conhecemos o amor nisto: que ele deu a sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos irmãos." I João 3:16), não vindicação ("Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra;" Mateus 5:39), etc.

És cristão?

05/06/2012

O dia do Pastor


Todos os anos, de norte a sul, várias igrejas celebram o "Dia do Pastor". Homenageiam e reconhecem os homens que as pastoreiam, agradecendo a Deus pelo seu serviço, exemplo e dedicação à Palavra. Sabemos que não há um mandamento bíblico expresso que sustente a celebração do “Dia do Pastor”, mas existirão bases bíblicas para este tipo de reconhecimento? Ou será que se trata de uma tradição extrabíblica com alguns riscos a considerar?

Para procurar dar resposta a estas questões, nada melhor do que atentar para o texto bíblico. Em primeiro lugar, citamos duas das muitas passagens que deixam claro que devemos ter grande estima e consideração pelos nossos pastores:
  • "E rogamo-vos, irmãos, que reconheçais os que trabalham entre vós e que presidem sobre vós no Senhor, e vos admoestam; e que os tenhais em grande estima e amor, por causa da sua obra..." (1 Tessalonicenses 5:12-13);
  • "Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina" (I Timóteo 5:17).
Claramente, a Bíblia legitima o reconhecimento e a manifestação de apreço, pela igreja, àqueles que pastoreiam (sejam eles designados pastores, presbíteros, anciãos ou bispos). Questionamo-nos, então, sobre o porquê deste mandamento, ou seja, porque razão devemos demonstrar o nosso apreço aos nossos pastores? Novamente, voltamo-nos para a Bíblia:
  • "Porque quero que saibais quão grande combate tenho por vós, e pelos que estão em Laodiceia, e por quantos não viram o meu rosto em carne; para que os seus corações sejam consolados, e estejam unidos em amor, e enriquecidos da plenitude da inteligência, para conhecimento do mistério de Deus e Pai, e de Cristo, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência. E digo isto, para que ninguém vos engane com palavras persuasivas. Porque, ainda que esteja ausente quanto ao corpo, contudo, em espírito estou convosco, regozijando-me e vendo a vossa ordem e a firmeza da vossa fé em Cristo" (Colossenses 2:1-5);
  • "Dou graças ao meu Deus todas as vezes que me lembro de vós, fazendo sempre com alegria oração por vós em todas as minhas súplicas, pela vossa cooperação no evangelho desde o primeiro dia até agora (...) Como tenho por justo sentir isto de vós todos, porque vos retenho em meu coração, pois todos vós fostes participantes da minha graça, tanto nas minhas prisões como na minha defesa e confirmação do evangelho. Porque Deus me é testemunha das saudades que de todos vós tenho, em entranhável afeição de Jesus Cristo. E peço isto: que o vosso amor cresça mais e mais em ciência e em todo o conhecimento, para que aproveis as coisas excelentes, para que sejais sinceros, e sem escândalo algum até ao dia de Cristo; cheios dos frutos de justiça, que são por Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus" (Filipenses 1:3-5, 7-11);
  • "Vós, portanto, amados, sabendo isto de antemão, guardai-vos de que, pelo engano dos homens abomináveis, sejais juntamente arrebatados, e descaiais da vossa firmeza" (Pedro 3:17).
Estes textos, como tantos outros, ilustram vividamente o coração de um pastor, o qual nutre preocupação e cuidado constantes pelas ovelhas e, em favor delas, se dedica fervorosamente à oração. Coloca-se, agora, uma terceira questão: como demonstrar o nosso apreço pelo trabalho daqueles que pastoreiam fielmente a igreja? Mais uma vez, vejamos o que a Bíblica ensina.
  • "Perseverai em oração, velando nela com ação de graças; orando também juntamente por nós, para que Deus nos abra a porta da palavra, a fim de falarmos do mistério de Cristo, pelo qual estou também preso; para que o manifeste, como me convém falar" (Colossenses 4:2-4);
  • "Orai por nós, porque confiamos que temos boa consciência, como aqueles que em tudo querem portar-se honestamente. E rogo-vos com instância que assim o façais, para que eu mais depressa vos seja restituído" (Hebreus 13:18-19);
  • "Lembrai-vos dos vossos pastores, que vos falaram a palavra de Deus, a fé dos quais imitai, atentando para a sua maneira de viver" (Hebreus 13:7);
  • "Porque muito me alegrei quando os irmãos vieram, e testificaram da tua verdade, como tu andas na verdade. Não tenho maior gozo do que este, o de ouvir que os meus filhos andam na verdade" (João 1:3-4);
  • "Obedecei a vossos pastores, e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossas almas, como aqueles que hão de dar conta delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil" (Hebreus 13:17);
  • "Porque diz a Escritura: Não ligarás a boca ao boi que debulha. E: Digno é o obreiro do seu salário" (I Timóteo 5:18).
As escrituras apontam-nos, então, para um tipo de apreciação e reconhecimento que não é coerente com a ideia de uma homenagem pontual ou celebração de um dia especial. Mais que isso, remetem-nos para o desenvolvimento de atitudes. São estas orar pelos nossos pastores, imitar-lhes a fé, seguir-lhes o exemplo, proclamar a verdade, viver na verdade, obedecer ao ensino da Palavra de Deus e providenciar o necessário e devido sustento. Este tipo de reconhecimento pressupõe intencionalidade, empenho e constância de cada um e de todos os membros da igreja, pelo que jamais poderá ser reduzido à celebração de um dia especial.

Verificando-se, assim, que o "Dia do Pastor" não está alinhado com a intenção de Deus expressa na sua Palavra, quais são os riscos para a igreja/denominação cuja cultura eclesiástica sustenta e promove tal celebração?

Amenização da consciência. A celebração de um dia especial do pastor pode traduzir uma tentativa, mais ou menos consciente, de compensar o que não se faz durante os restantes 364 dias do ano. Contudo, nenhum poema, jogral, cântico ou gravata - por mais bonitos e bem intencionados que sejam - poderão substituir a oração, a lealdade, a verdade, a obediência e o sustento contínuos.

Mentira. Nem tudo o que é dito no “Dia do Pastor” é verdade. A bela descrição do pastor no guião pode não corresponder à pessoa, de facto, que pastoreia a igreja. O participante na homenagem, a bem do momento, pode condescender à expressão de sentimentos e palavras que, sendo bonitas e comoventes, não correspondem infalivelmente à realidade. Na verdade, o pastor é um homem que luta contra a sua velha natureza, vivendo numa batalha espiritual constante em busca da maturidade espiritual e santificação.

Injustiça. O texto de Romanos 13:7 exorta-nos a dar honra a quem a merece ("Portanto, dai a cada um o que deveis: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra"). Ora, se considerarmos apropriada a celebração de um dia especial para o pastor o que dizer de todas as outras pessoas que ministram no seio da igreja? Não serão também elas merecedoras de reconhecimento e honra atendendo a que, frequentemente, exercem ministérios de grande responsabilidade em acumulação com atividades profissionais também exigentes? Porque não celebrar o dia do diácono, o dia do membro da equipa ministerial, o dia do professor da EBD, o dia do responsável pelas limpezas, o dia do rececionista, o dia do líder de louvor, etc?

Vaidade e orgulho. Este é um perigo muito real. O pastor que recebe elogios e louvores num pomposo tributo torna-se suscetível à tentação de acreditar que, afinal, é mesmo especial e que lhe vale, não somente a graça de Deus, mas o seu empenho, a sua capacidade de aconselhar, os seus dotes de oratória, a sua personalidade, etc. O problema agrava-se quando é o próprio a sentir a necessidade de lembrar os irmãos que está quase a chegar o dia do pastor, garantindo a insuflação anual do seu ego. Não há qualquer necessidade nem utilidade em um pastor colocar-se a si próprio e ao seu rebanho nesta situação.

Hierarquização. Começa com a cadeira com uma decoração especial e colocada num lugar especial. Depois continua com toda uma sucessão de textos, músicas, imagens e apresentações que, muitas vezes, mais não fazem do que colocar o pastor num pedestal. A grande tragédia desta tendência (que, infelizmente, não se resume à celebração do dia do pastor) é que a função pastoral passa a ser percebida e exercida como se fosse uma posição. Nunca é demais lembrar a clareza com que Jesus se referiu a este problema: "…bem sabeis que pelos príncipes dos gentios são estes dominados, e que os grandes exercem autoridade sobre eles. Não será assim entre vós; mas todo aquele que quiser entre vós fazer-se grande seja vosso serviçal" (Mateus 20:25-26).

Idolatria. De todos os efeitos perversos da celebração do dia do pastor, este é, provavelmente, o mais grave. A perceção distorcida do ministério pastoral facilmente pode descambar na mais absurda, mas real, forma de idolatria manifestada por gestos, palavras e atitudes de adulação e lisonja. O pastor, em vez de ser visto como um servo, no mesmo nível que toda a igreja ("cada um considere os outros superiores a si mesmo", Filipenses 2:3), por quem devemos orar e cujo exemplo de verdade e integridade devemos seguir, passa a ser visto como uma espécie de pescoço do corpo de Cristo, como se do representante de Cristo se tratasse.

Estes e outros, certamente, são perigos reais deste tipo de celebração. Melhor faremos se nos cingirmos às formas de demonstração de apreço que se encontram inscritas nas sagradas Escrituras, do que permitir que uma tradição extrabíblica contribua para a deturpação da perceção do ministério pastoral e, quem sabe, do próprio ministério em si.

03/06/2012

Contra factos...

A questão teológica sobre se Jesus seria ou não o enviado de Deus, acalorou o debate entre os fariseus, naquele dia. Um alegado ex-cego dizia que este homem o tinha curado milagrosamente e agora, o importante era descobrir se esta era uma obra que revelava que Jesus era o Messias ou se, por ter sido realizada num Sábado, este era simplesmente mais um "homem pecador". Sim, porque realizar intervenções médicas no dia do Senhor era uma clara violação das regras religiosas estabelecidas.

Foi imediata a mudança do assunto "este homem foi curado de forma inexplicável" para "o Sábado foi violado"! A discussão sobre o processo e respetivas circunstâncias e formalismos elevou-se rapidamente acima dos factos . Não era importante se uma pessoa que não via desde nascença agora via, mas sim se a forma como tal tinha acontecido contrariava ou ofendia o status quo defendido pelos líderes religiosos.

É provável até que Jesus fizesse questão de realizar este milagre, com o "trabalho" de fazer lodo com a sua saliva e untar os olhos daquele cego, propositadamente num Sábado, para mostrar a sua autoridade sobre o Sábado. Jesus não estava limitado ao legalismo dos fariseus. Ele era a Autoridade incarnada!

Os fariseus são, neste episódio (e noutros), o paradigma da forma como permitimos que a nossa religiosidade se sobreponha às transformações milagrosas que Deus está a fazer e quer fazer na vida das pessoas. É angustiante quando, mesmo com as melhores intenções, somos um tropeço para a ação de Deus e para a Sua intervenção redentora. Quantas pessoas poderão já ter sido marginalizadas, oprimidas e violentadas, em prol das nossas observâncias religiosas legalistas?

Curiosamente, a nota de maior clarividência neste episódio, que lemos no nono capítulo do evangelho de João, é dada por aquele que, até àquele momento, tinha sido cego: "Se é pecador, não sei; uma coisa sei, é que, havendo eu sido cego, agora vejo." João 9:25. Contra factos não há argumentos!

31/05/2012

Esperança de quê?

Quando as circunstâncias se degradam, como nos tempos de crise que vivemos, algumas pessoas voltam-se para Deus. Quando tudo começa a falhar, lembram-se que Ele talvez lhes possa valer. Mas, o que esperam estas pessoas? Quando se voltam para Deus, quais são as suas expectativas? Têm esperança de que aconteça o quê?

Não será pouco frequente ouvirmos, em resposta a estas questões, que têm esperança de que as coisas melhorem. Agora não vêem soluções, mas acreditam que Deus as vai ajudar e, num futuro que se quer próximo, melhorar as suas condições de vida. Mas, será que a promessa de Deus é de que "as coisas vão melhorar"?

Encontramos alguns exemplos bíblicos em que situações de grande dificuldade foram transformadas em abundância e segurança, como por exemplo, o caso de Jó. Depois de passar por tremendas provações, Jó foi abençoado com uma enorme abastança, a todos os níveis. No entanto, também encontramos diversos casos em que as circunstâncias, em vez de melhorarem, se deterioraram.

Por exemplo, no caso de Estêvão a sua fidelidade e ousadia não foram recompensadas com melhoria das condições de vida, nem das suas circunstâncias imediatas. Pelo contrário, do que era humanamente observável, tudo correu muito mal. Outro exemplo é o de Paulo. Também devido à sua dedicação e intrepidez, assistiu a uma considerável diminuição da sua qualidade de vida (!). Desde os momentos em que foi perseguido e apedrejado, até aos seus aprisionamentos, é fácil perceber que, do ponto de vista humano, as coisas não melhoraram, para Paulo. E o que dizer destes heróis descritos em Hebreus: "uns foram torturados, não aceitando o seu livramento, para alcançarem uma melhor ressurreição; outros experimentaram escárnios e açoites, e até cadeias e prisões. Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada; andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, desamparados, aflitos e maltratados (Dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, e montes, e pelas covas e cavernas da terra." Hebreus 11:35-38? Para estes, é evidente que as circunstâncias não se tornaram mais favoráveis, como resultado da sua relação com Deus.

A realidade é que as promessas de Deus não são de que tudo irá necessariamente melhorar. As promessas são, essencialmente, de que, mesmo que todas as circunstâncias da nossa vida venham a se deteriorar (Habacuque 3:17-18), Ele estará sempre presente e, em todas essas circunstâncias desfavoráveis, podemos contar com a Sua força, para suportar, ultrapassar e O glorificar ("E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo." II Coríntios 12:9). 

29/05/2012

Fragmentos do Evangelho

Assistimos ao proliferar desenfreado das mais variadas tendências religiosas, espirituais e místicas. Muitas apresentam-se como cristãs e apregoam novas interpretações e vivências do Evangelho. Na sua grande maioria, infelizmente, apresentam somente fragmentos do Evangelho. Partes, em vez do todo, como se do todo se tratasse. Esta fragmentação fica evidente, quando percebemos, por exemplo, a elevada ênfase que é dedicada ao receber as bênçãos de Deus e ao tomar posse das vitórias que Ele tem preparado para nós.

Quem conhece a Bíblia concorda que Deus tem, de fato, inúmeras bênçãos (Romanos 8:32) e vitórias (Romanos 8:37 e I Coríntios 15:57) para os Seus filhos. Embora, muitas vezes as bênçãos a que se referem alguns destes movimentos não encontrem fundamentação bíblica, a realidade é que Deus é bondoso e gracioso, abençoando-nos e fazendo com que sejamos mais do que vencedores, muito para além do que merecemos.

No entanto, julgo que a maior dificuldade com este tipo de apresentação fragmentada do Evangelho reside em apregoar a bênção sem falar no arrependimento e anunciar a vitória sem fazer referência à obediência (Deuteronómio 11:26-32 e João 15:14). No fundo, fica a faltar a apresentação da parte menos popular do Evangelho: a necessidade de nos arrependermos dos nossos pecados e de vivermos uma vida de obediência à vontade de Deus. Esta parte do Evangelho é mais incómoda, mais trabalhosa e, do ponto de vista do marketing moderno, não é tão cativante como bênçãos e vitórias.

O mais dramático em toda esta situação é que nós, os que não nos integramos nesses grupos fragmentadores do Evangelho, acabamos por nos deixar levar na onda e cedemos ao contágio. É muito fácil permitirmos que o nosso ensino e aquilo que apresentamos na proclamação da Palavra acabe por ficar contaminado com esta tendência. É muito fácil permitir que a bênção seja mais falada do que a necessidade de arrependimento e que as vitórias se sobreponham ao ensino sobre a obediência. E não só no nosso ensino, mas também, por exemplo, nos nosso cânticos. Seria muito interessante fazer uma estatística sobre o número de coros que falam sobre as coisas que recebemos de Deus e o número de coros que falam sobre as nossas reais necessidades e responsabilidades.

É também importante resistir à tentação de apresentar a bênção e a vitória como resultados mais ou menos automáticos do cumprimento das nossas responsabilidades e da nossa obediência. Como se Deus ficasse obrigado a nos dar o que quer que seja, por causa das nossas obras. O arrependimento e a obediência SÃO a bênção e a vitória! Nada é mérito nosso, nem algum dia mereceremos outra coisa que não a morte (Romanos 6:23). Toda a boa dádiva é imerecida e fruto da imensa graça de Deus (Tiago 1:7).

27/05/2012

A presença de Deus

O que é a presença de Deus? De que forma o conceito que temos da Sua presença, mais ou menos consciente, influencia a nossa maneira de viver?

No contexto das nossas igrejas, é frequente ouvirmos expressões como "vamos entrar na presença do Senhor", "cheguemo-nos à presença do Senhor", "vamos à Tua presença, Senhor" ou outras relacionadas, semelhantes e derivadas. É comum que estas expressões sejam usadas no início das celebrações ou no decurso, por exemplo, de orações. Têm um quê de poético ou dramático, com raízes em algumas situações do Antigo Testamento e, na minha maneira de ver, procuram conferir um tom mais sério ou sagrado ao que se vai passar a seguir. Quando usadas nas orações, parecem querer enfatizar a nossa posição necessitada e dependente de peticionários perante o trono real - o que, na realidade, somos.

No entanto, quando refletimos seriamente sobre estas expressões, parece-me inevitável um certo sentimento de desconforto típico de quando percebemos que alguma coisa não está a bater certo. Se a presença de Deus é um estado, um momento ou um local (mesmo que não seja físico) no qual entramos ou ao qual nos achegamos ocasionalmente, em que circunstância estávamos antes ou onde ficamos depois de sairmos novamente dessa presença? Por outras palavras, se entramos na presença de Deus, na presença de quem estávamos antes? E na presença de quem ficaremos quando nos ausentarmos dessa Sua presença? Sim, porque cada vez que nos achegamos ou entramos, assumimos que estávamos fora ou longe.

Alguns utilizadores destas expressões dirão que são somente forças de expressão, para ajudar as pessoas a se sintonizarem com Deus ou para estimular a procurar de uma maior intimidade com Ele e maior dependência da Sua providência. No entanto, acredito que a maior parte dos que assim defendem, terão o conhecimento bíblico necessário para concordar que a sã doutrina não se fundamenta em forças de expressão, que até podem ser bonitas mas que não correspondem à verdade bíblica. Por outro lado, é sabido que tanto o que pensamos molda o que dizemos como as nossas expressões (ditas e ouvidas) moldam a nossa maneira de pensar. Desta forma, o uso deste tipo de expressões condiciona o pensamento de forma a vermos a presença de Deus como sendo algo  onde se entra e de onde se sai, conforme nos envolvemos em determinadas atividades de cariz religioso ou não.

Acredito que, ao usarmos expressões deste tipo estamos a prejudicar seriamente a forma como as pessoas que nos ouvem entenderão quem Deus é e como se relaciona connosco. Alimentar a ideia de que existem momentos em que estamos na presença de Deus e outros em que não estamos é meio caminho andado para promovermos uma dualidade comportamental que podemos caricaturizar como "esquizofrenia espiritual". Esta dualidade leva as pessoas a não integrarem a vivência da sua fé em cada momento e área da vida, nem a perceberem a constância da presença de Deus no seu dia-a-dia. Em vez disso, compartimentam a sua vida em sagrado/secular, igreja/mundo, com todas as consequências desestruturantes que daí advêm. Vivem as suas vidas normais e, depois, nuns ocasionais momentos sagrados, nas instalações da igreja, entram na presença de Deus, para lhe pedir ou agradecer (menos frequente) umas coisas e oferecer uns cânticos.

Podemos encontrar algumas referências a expressões deste tipo no Antigo Testamento. De facto, Deus foi manifestando a sua revelação ao Homem de forma progressiva e gradual. Assim, a forma como Deus se relacionou com o povo, no Antigo Testamento, foi progredindo, tendo vindo a culminar na revelação através da pessoa de Jesus ("Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho" Hebreus 1:1). Penso ser importante distinguirmos, o período antes do Pentecostes e o tempo depois deste importante evento. De facto, antes do Pentecostes, a presença de Deus entre o povo foi sendo representada por diversos elementos materiais, entre os quais o tabernáculo e o templo. Deus não estava constantemente presente na vida de cada pessoa. Existia um símbolo visível dessa presença, entre o povo. Além disso, sempre que Deus pretendida usar alguém para determinada tarefa, o Seu Espírito era enviado sobre essa pessoa especificamente e com ele permanecia até que a obra ficasse completa ou até que a pessoa fosse desobediente (como aconteceu, por exemplo, com Saúl).

A partir do momento do Pentecostes (Atos 2), o Espírito é concedido de forma permanente a cada pessoa que se arrepende dos seus pecados e confia em Jesus como seu Salvador e Senhor. Eu diria que este é o único momento em que nós, de fato, entramos na presença de Deus ("Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados, e venham assim os tempos do refrigério pela presença do Senhor" Atos 3:19)! A partir desse momento, vivemos sempre em Sua presença. Ele garantiu que o Espírito estaria para sempre connosco ("E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre; espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco, e estará em vós." João 14:16-17). O próprio Jesus garantiu que estaria para sempre connosco ("e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém." Mateus 28:20). Por isso, não me parece existir razão para pensarmos que entramos e saímos da presença de Deus, cada vez que cultuamos como igreja, oramos ou fazemos qualquer outra atividade.

É certo que a proximidade a que estamos de Deus não é sempre a mesma. Naturalmente, por causa dos nossos pecados, desviamo-nos e distanciamo-nos de Deus, infelizmente, com alguma frequência. Somos, assim, desafiados a uma aproximação de Deus, que se quer constante ("Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno." Hebreus 4:16). No entanto, a realidade é que, mesmo quando nos desviamos dele, da Sua vontade e dos Seus propósitos, o Espírito permanece connosco, entristecendo-se. Ou seja, mesmo com um comportamento distante de Deus, continuamos a viver na Sua presença, porque Ele faz-se sempre presente em nós! Que privilégio e que responsabilidade!

Muitos de nós vimos de contextos religiosos tradicionais, com uma série de habituações de pensamento e de linguagem que nos agrilhoam e dificultam a compreensão da nova (verdadeiramente nova) vida que temos com o nosso Pai! É, portanto, absolutamente imprescindível investirmos numa autêntica redenção dos nossos pensamentos, bem como da nossa linguagem ("E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus." Romanos 12:2). 

Não podemos permitir que frases-feitas a que nos habituámos e acomodámos e que já não fazem sentido num contexto pós-Pentecostes, reduzam e atrofiem a qualidade de vida abundante que nos é oferecida, ao abrigo desta nova filiação, através da pessoa de Jesus. Vivamos, de facto, com a clara convicção de que estamos sempre na presença eterna de Deus ("Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?" I Coríntios 6:19)!

Verdade e mentira

Parte da verdade, apresentada como se fosse toda a verdade, é a mentira mais eficaz!

Relativismo


O relativista absoluto só o é até declarar que tudo é relativo ou que não há absolutos.

"Disse-lhe Jesus: Eu sou O caminho, e A verdade e A vida; ninguém vem ao Pai, senão por MIM." João 14:6

SENTIR ou SABER?

Perante uma tão grande ênfase atual em "sentir Deus", "sentir o Espírito", "sentir a Sua presença", e outras parecidas e derivadas, importa que a verdade bíblica seja defendida e proclamada: não somos desafiados a sentir Deus, mas sim a CONHECÊ-LO! A Bíblia fundamenta a primazia do conhecimento de Deus (esta é a vida eterna!) acima de qualquer experiência mais ou menos mística de arrepios, calafrios ou "correntes de ar". Quando SABEMOS, sem depender do que "sentimos", temos a constante garantia da Sua presença ETERNA nas nossas vidas, em TODO o lugar e em TODAS as situações.

14/03/2007

Agradeço...

"Pelas minhas filhas que muitas vezes não limpam o quarto e estão a ver televisão, porque significa que estão em casa.

Pela desordem que tenho que limpar depois de uma festa, porque significa que estivemos rodeados de familiares e amigos.

Pelas roupas que me estão apertadas, porque significa que tenho mais do que o suficiente para comer.

Pelo trabalho que tenho a limpar a casa, porque significa que a tenho.

Pelas queixas que escuto acerca do governo, porque significa que tenho liberdade de expressão.

Porque não encontro estacionamento, porque significa que tenho carro.

Pelos gritos das crianças, porque significa que posso ouvir.

Pelo cansaço no final do dia, porque significa que posso trabalhar.

Pelo despertador que me acorda todas as manhãs, o que significa que estou vivo."


Não é original meu, mas é verdade...

05/03/2007

2ª Lei da Termodinâmica

A segunda Lei da Termodinâmica, também conhecida como a Lei da Entropia, enuncia resumidamente: "A entropia (do grego εντροπία, entropía) é uma grandeza termodinâmica geralmente associada ao grau de desordem. Ela mede a parte da energia que não pode ser transformada em trabalho. É uma função de estado cujo valor cresce durante um processo natural num sistema fechado."
Se os sistemas tendem para a desordem e perca de energia, como é que se explica que durante milhões e milhões de anos, esta Lei foi contrariada, na medida em que sistemas e seres aumentavam a sua ordem, complexidade e organização?!
As evidências não sustentam as afirmações evolucionistas, mas sim as criacionistas!

26/02/2007

Novo Testamento

Como é que o documento da antiguidade do qual temos mais manuscritos (cópias) e cujo intervalo de tempo entre cópias e originais é o menor, acaba por ser o mais contestado, atacado e desacreditado de todos?! Dá que pensar, não é?

19/10/2006

Uma nova família!

Todo o ser humano sente a necessidade de pertença. Não fomos criados para ficarmos isolados, nem para deixarmos de cultivar relacionamentos. Desde muito cedo, sentimos a necessidade de sermos aceites pelos outros. Precisamos sentir que a nossa família nos aceita, procuramos amigos com quem temos afinidade, juntamo-nos a grupos, clubes, associações, bandas, partidos,
etc, etc.

A primeira instituição que Deus planeou para nos permitir uma plena vivência da pertença é a família. Além da nossa família biológica, Deus ainda cuidou de criar uma nova família, na qual Ele é o Pai . Trata-se da “família de Deus”, na qual entramos quando recebemos a pessoa de Jesus na nossa vida e somos transformados em filhos de Deus.

O corpo de Cristo é a nossa nova família, na qual podemos aprender e crescer.

Visite www.iebpv.org

10/07/2006

Espiritualmente abusados

Olá!

Cada dia que passa, encontro mais pessoas que sofreram (ou estão a sofrer) experiências negativas no seio da igreja onde pertenciam (ou pertencem).

Além serem confrontados com situações de dualidade de critérios e julgamentos pessoais (do tipo: faz o que te digo, mas não faças o que eu faço), encontram-se, muitas vezes, enredados em autênticas ciladas montadas pela próprio liderança. Autoritarismo, manipulação, chantagem, prepotência e outras atitudes da mesmo ordem de valor, grassam por entre inúmeras igrejas e grupos religiosos.

Algumas dessas igrejas já se habituaram de tal forma a todo o tipo de abuso espiritual, que se tornou algo normal e até (imagine-se) desejado!

A Palavra de Deus condena estas práticas e atitudes. São inúmeros os textos bíblicos que promovem uma liderança saudável, equilibrada e amorosa (num outro momento, poderei referir-me a alguns deles...).

Encontrei um site que pode ajudar (muitos outros existirão, com certeza): http://www.safeinchurch.org/

Que Deus traga cura à tua vida!!!