24/11/2013

Reencontro com a Palavra


A cada sete anos, a Lei deveria ser lida integralmente a todo o povo: homens, mulheres, crianças e estrangeiros, nas cidades onde habitavam, deveriam ouvir e aprender a temer o Senhor seu Deus e seguir fielmente todas as palavras da Lei (Cf. Deuteronómio 31:10-13). Contudo, passadas décadas de cativeiro, o cumprimento dessa valiosa cerimónia tinha ficado para trás. Agora estavam de volta a Jerusalém, e os muros da cidade que simbolizava a aliança estabelecida por Deus, reconstruídos. Então, no início do sétimo mês, é o próprio povo que reconhece a pungente falta, pelo que toma a iniciativa de se congregar e de requerer a Esdras que leia o livro da Lei. Este momento, um dos mais emotivos na história do povo de Deus, está relatado no oitavo capítulo de Neemias.
Certamente, este anseio de ouvir a Palavra de Deus era motivado, também, pela impossibilidade de lê-la individualmente. Mas essa não terá sido a única razão. Vejamos. Hoje temos acesso à Palavra de Deus escrita como nunca antes, em todos os formatos e para todos os gostos. No entanto, parece nunca ter existido tão pouco interesse espiritual genuíno pela Palavra de Deus. Em muitos círculos, ela está reduzida a somente mais um livro, com algumas ideias interessantes, mas com muitos erros e sem grande relevância prática. Cada vez menos, a Palavra de Deus é lida como alimento, luz, instrução, orientação, correção; como a revelação de Deus. De acordo com um estudo realizado em 2012 pela LifeWay, somente 20% dos frequentadores das igrejas evangélicas afirmam ler a Bíblia todos os dias. Nos dias de Neemias, contudo, o povo sentiu fome da Palavra ao ponto de ficar de pé durante seis horas a ouvir a sua leitura e explicação, sempre com “ouvidos bem atentos”. Teremos nós de sofrer dura repreensão de Deus, passando por cativeiro, para nos apegarmos novamente à leitura e estudo da Palavra?
No seguimento do texto de Neemias, lemos que à medida que os líderes liam, também davam explicações sobre o texto. Além da Palavra ter sido lida com toda a clareza, era necessário explicar o seu sentido. Era necessário que o povo não só a ouvisse, mas que a entendesse. Não nos basta ler e conhecer a Bíblia. Precisamos compreendê-la, meditar nela, estudá-la com afinco, refletir sobre as suas implicações e aplicações. Para isso, é necessário não só o tempo individual de leitura e estudo, mas também todas as oportunidades de leitura e estudo em grupo sob a orientação de servos idóneos, capacitados por Deus com o dom do ensino.
Percebemos que o povo compreendeu claramente o sentido da Lei que estava a ser lida quando os líderes tiveram de pedir que não chorasse mais. A profunda comoção de ouvir as palavras do seu Deus verteu em lágrimas. Lágrimas de arrependimento: imaginemos como se terão sentido, por exemplo, ao ouvir o texto de Deuteronómio, em que Deus coloca perante o povo a escolha entre a bênção e a maldição (Deuteronómio 30:19-20); que pensamentos, ao perceber a destruição e o sofrimento que haviam caído sobre eles, simplesmente por não terem obedecido. Mas, também, lágrimas de alegria pelo perdão e pela restauração que Deus já havia trazido sobre eles. Aliás, é neste sentido que se percebe a admoestação: “Não chorem mais. Vão festejar! Comam, bebam e partilhem com quem não tem. Este dia é consagrado ao Senhor.”
Finalmente, lemos acerca de uma segunda aproximação ao livro da Lei, no dia seguinte, por parte dos chefes das famílias. Voltaram a Esdras e atentaram novamente para o texto bíblico, essencialmente para fazerem uma aplicação prática do que havia sido lido. A Lei havia sido lida, compreendida e agora deveria ser aplicada. Neste caso, era tempo de recordar a travessia do povo pelo deserto, assim como o cuidado e provisão de Deus durante esse período de tempo. Nunca, desde os tempos de Josué, a celebração da Festa dos Tabernáculos tivera tal intensidade e abrangência.
A nós também, não nos basta ler a Bíblia e compreendê-la. Há que aplicá-la, cumprir o que ela diz. A reverência que Deus pede de nós em relação à Palavra é a nossa obediência completa ao seu conteúdo: “Sede cumpridores da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a nós mesmos.” (Tiago 1:21) Enganamo-nos, ao julgar que o pouco que sabemos e as ideias vagas que temos acerca do que a Bíblia diz é suficiente; enganamo-nos com discursos e racionalizações vãs; sentimo-nos imunes ao mal e acima de qualquer necessidade de submeter a nossa vida a uma efetiva obediência prática à Palavra de Deus.
Que através da leitura, compreensão e aplicação quotidiana da Palavra de Deus, possamos, de facto, dizer que ela é o alimento para a nossa alma e a luz para o nosso caminho.

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