17/08/2012

Injustiça?

Uns começaram a trabalhar às seis horas da manhã, outros às nove, outros ao meio-dia, e outros às quinze. O último grupo começou às dezassete horas. No final, o proprietário da vinha pagou a todos o que tinha combinado com os primeiros: um denário a cada um. Este é o resumo da parábola dos trabalhadores da vinha, registada em Mateus 20:1-16.
"Mas que injustiça é esta?", reclamaram os que trabalharam desde as seis horas. "Trabalhámos todo o dia, aguentámos o calor intenso e recebemos o mesmo que os que trabalharam uma pequena parte do dia?"

Numa primeira análise, concordamos com suas reclamações. Afinal, quem não se identifica com estes trabalhadores? Todos queremos que os nossos méritos e esforços sejam reconhecidos e destacados daqueles que trabalharam menos (ainda mais porque, aos nossos olhos, o nosso trabalho tem sempre mais valor que o dos outros).

Esta parábola é uma ilustração acerca do Reino dos Céus e parece dar a entender que, trabalhemos muito ou pouco, todos receberemos a mesma recompensa. Todavia, se é assim, se no final o Senhor dará um denário a todos igualmente, independentemente do seu esforço, de que valerá esforçarmo-nos e empenharmo-nos na obra de Deus?

A chave para entender o significado desta parábola está no versículo 14: "...eu quero dar a este último tanto como a ti". A dádiva do denário a cada um dos trabalhadores é um exercício da livre e generosa vontade do dono da vinha. Ele diz "eu quero", isto é, a dádiva do proprietário não resulta do trabalho realizado pelo trabalhador, mas da sua vontade. Logo, não é um pagamento, nem um dever (Romanos 4:4-5), mas, sim, uma ação voluntária de bondade.

Estabelecendo o paralelo com o domínio espiritual, esta parábola aponta para uma dádiva imerecida que é nada menos que a própria salvação. Pela vontade generosa do Rei, a salvação é concedida a todos os que ouvem o seu chamado e aceitam entrar para o seu Reino, submetendo-se às suas ordens. A salvação que uns recebem é igual à que os outros recebem. E isto é graça - uma dádiva imerecida!

Entremos no Reino - sempre através do arrependimento dos pecados e fé em Jesus! - muito cedo na nossa vida, e nos seja dado o privilégio beneficiar bem cedo das bênçãos do Reino; ou entremos tarde, no final da nossa vida, eventualmente, depois de uma vida de oposição ao Reino, de violência ou de absoluta licenciosidade, a dádiva é a mesma: a vida eterna!

Parece-nos injusto? Sem dúvida que sim! E bem se pode dizer, bendita injustiça! Frequentemente pedimos a Deus que nos faça justiça. Felizmente, para nossa bênção, a nossa oração nem sempre é atendida. É que a Bíblia mostra que, por causa do nosso pecado, o que merecemos é, justamente, a morte (Romanos 6:23). E não nos iludamos ao pensar que já fizemos suficientes boas obras, para compensar os pecados e que, por esta razão, o nosso saldo é positivo e, portanto, podemos exigir que Deus nos trate com justiça e nos recompense. O grande problema deste raciocínio é que a Bíblia não lhe dá suporte.

Na realidade, Paulo mostra que até as obras (obediência) são feitas pela graça de Deus (I Coríntios 15:10). Ou seja, as coisas verdadeiramente certas e boas que fazemos, porque resultam da graça de Deus, não nos dão créditos. Efetivamente, o que acontece é que, assim, aumentaríamos a nossa dívida para com Deus, em vez de contribuir para a saldar!

A última coisa de que precisamos é que Deus aplique, na nossa vida, a sua perfeita justiça, a qual, pela sua graça, já foi aplicada, de forma completa e final, na pessoa de Jesus.

“Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que levantarei a David um Renovo justo; e, rei que é, reinará, e agirá sabiamente, e executará o juízo e a justiça na terra. Nos seus dias, Judá será salvo, e Israel habitará seguro; será este o seu nome, com que será chamado: SENHOR, Justiça Nossa” (Jeremias 23:5-6).

Vale-nos a vontade generosa do nosso Rei que, pela sua graça, nos dá o que não merecemos - a salvação, e, pela sua misericórdia, não nos dá o que merecemos - a morte!

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