27/05/2012

A presença de Deus

O que é a presença de Deus? De que forma o conceito que temos da Sua presença, mais ou menos consciente, influencia a nossa maneira de viver?

No contexto das nossas igrejas, é frequente ouvirmos expressões como "vamos entrar na presença do Senhor", "cheguemo-nos à presença do Senhor", "vamos à Tua presença, Senhor" ou outras relacionadas, semelhantes e derivadas. É comum que estas expressões sejam usadas no início das celebrações ou no decurso, por exemplo, de orações. Têm um quê de poético ou dramático, com raízes em algumas situações do Antigo Testamento e, na minha maneira de ver, procuram conferir um tom mais sério ou sagrado ao que se vai passar a seguir. Quando usadas nas orações, parecem querer enfatizar a nossa posição necessitada e dependente de peticionários perante o trono real - o que, na realidade, somos.

No entanto, quando refletimos seriamente sobre estas expressões, parece-me inevitável um certo sentimento de desconforto típico de quando percebemos que alguma coisa não está a bater certo. Se a presença de Deus é um estado, um momento ou um local (mesmo que não seja físico) no qual entramos ou ao qual nos achegamos ocasionalmente, em que circunstância estávamos antes ou onde ficamos depois de sairmos novamente dessa presença? Por outras palavras, se entramos na presença de Deus, na presença de quem estávamos antes? E na presença de quem ficaremos quando nos ausentarmos dessa Sua presença? Sim, porque cada vez que nos achegamos ou entramos, assumimos que estávamos fora ou longe.

Alguns utilizadores destas expressões dirão que são somente forças de expressão, para ajudar as pessoas a se sintonizarem com Deus ou para estimular a procurar de uma maior intimidade com Ele e maior dependência da Sua providência. No entanto, acredito que a maior parte dos que assim defendem, terão o conhecimento bíblico necessário para concordar que a sã doutrina não se fundamenta em forças de expressão, que até podem ser bonitas mas que não correspondem à verdade bíblica. Por outro lado, é sabido que tanto o que pensamos molda o que dizemos como as nossas expressões (ditas e ouvidas) moldam a nossa maneira de pensar. Desta forma, o uso deste tipo de expressões condiciona o pensamento de forma a vermos a presença de Deus como sendo algo  onde se entra e de onde se sai, conforme nos envolvemos em determinadas atividades de cariz religioso ou não.

Acredito que, ao usarmos expressões deste tipo estamos a prejudicar seriamente a forma como as pessoas que nos ouvem entenderão quem Deus é e como se relaciona connosco. Alimentar a ideia de que existem momentos em que estamos na presença de Deus e outros em que não estamos é meio caminho andado para promovermos uma dualidade comportamental que podemos caricaturizar como "esquizofrenia espiritual". Esta dualidade leva as pessoas a não integrarem a vivência da sua fé em cada momento e área da vida, nem a perceberem a constância da presença de Deus no seu dia-a-dia. Em vez disso, compartimentam a sua vida em sagrado/secular, igreja/mundo, com todas as consequências desestruturantes que daí advêm. Vivem as suas vidas normais e, depois, nuns ocasionais momentos sagrados, nas instalações da igreja, entram na presença de Deus, para lhe pedir ou agradecer (menos frequente) umas coisas e oferecer uns cânticos.

Podemos encontrar algumas referências a expressões deste tipo no Antigo Testamento. De facto, Deus foi manifestando a sua revelação ao Homem de forma progressiva e gradual. Assim, a forma como Deus se relacionou com o povo, no Antigo Testamento, foi progredindo, tendo vindo a culminar na revelação através da pessoa de Jesus ("Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho" Hebreus 1:1). Penso ser importante distinguirmos, o período antes do Pentecostes e o tempo depois deste importante evento. De facto, antes do Pentecostes, a presença de Deus entre o povo foi sendo representada por diversos elementos materiais, entre os quais o tabernáculo e o templo. Deus não estava constantemente presente na vida de cada pessoa. Existia um símbolo visível dessa presença, entre o povo. Além disso, sempre que Deus pretendida usar alguém para determinada tarefa, o Seu Espírito era enviado sobre essa pessoa especificamente e com ele permanecia até que a obra ficasse completa ou até que a pessoa fosse desobediente (como aconteceu, por exemplo, com Saúl).

A partir do momento do Pentecostes (Atos 2), o Espírito é concedido de forma permanente a cada pessoa que se arrepende dos seus pecados e confia em Jesus como seu Salvador e Senhor. Eu diria que este é o único momento em que nós, de fato, entramos na presença de Deus ("Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados, e venham assim os tempos do refrigério pela presença do Senhor" Atos 3:19)! A partir desse momento, vivemos sempre em Sua presença. Ele garantiu que o Espírito estaria para sempre connosco ("E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre; espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco, e estará em vós." João 14:16-17). O próprio Jesus garantiu que estaria para sempre connosco ("e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém." Mateus 28:20). Por isso, não me parece existir razão para pensarmos que entramos e saímos da presença de Deus, cada vez que cultuamos como igreja, oramos ou fazemos qualquer outra atividade.

É certo que a proximidade a que estamos de Deus não é sempre a mesma. Naturalmente, por causa dos nossos pecados, desviamo-nos e distanciamo-nos de Deus, infelizmente, com alguma frequência. Somos, assim, desafiados a uma aproximação de Deus, que se quer constante ("Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno." Hebreus 4:16). No entanto, a realidade é que, mesmo quando nos desviamos dele, da Sua vontade e dos Seus propósitos, o Espírito permanece connosco, entristecendo-se. Ou seja, mesmo com um comportamento distante de Deus, continuamos a viver na Sua presença, porque Ele faz-se sempre presente em nós! Que privilégio e que responsabilidade!

Muitos de nós vimos de contextos religiosos tradicionais, com uma série de habituações de pensamento e de linguagem que nos agrilhoam e dificultam a compreensão da nova (verdadeiramente nova) vida que temos com o nosso Pai! É, portanto, absolutamente imprescindível investirmos numa autêntica redenção dos nossos pensamentos, bem como da nossa linguagem ("E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus." Romanos 12:2). 

Não podemos permitir que frases-feitas a que nos habituámos e acomodámos e que já não fazem sentido num contexto pós-Pentecostes, reduzam e atrofiem a qualidade de vida abundante que nos é oferecida, ao abrigo desta nova filiação, através da pessoa de Jesus. Vivamos, de facto, com a clara convicção de que estamos sempre na presença eterna de Deus ("Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?" I Coríntios 6:19)!

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